postais da ria (121)


umbiguices

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a espera, o espelho, calma ria, calmaria

tenho do umbigo a noção
exacta da sua função
foi por ele que me alimentei
no ventre de minha mãe
nada mais

agora aí está melhor ou pior
desenhado na barriga
sem quaisquer funções
não perco por isso tempo
em contemplá-lo

a olhar para o umbigo
muito boa gente anda
no dizer afiado e simples
da sabedoria popular

sentam-se na sua vidinha
sabem todos os nomes
que abrem portas e janelas
não incomodam para
não serem incomodados

como eu os entendo
umbigo só há um
e agora a mãe é outra

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toda a beleza é pouca aqui

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio, 2012)

postais da ria (119)


palavras para mim

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as palavras necessárias

livros eram três de histórias
para uma menina que nesse dia
seis anos breves fazia

a minha neta mais nova
a rosarinho

junto um postal em forma de flor
e palavras do avô

ao telefone
o livro de que gostei mais foi o da flor

porquê
quis saber

tinha palavras para mim

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há palavras à espera

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (118)


digo

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a limpidez das palavras
o serem assim
todas para todos

não quero explicar a luz
o princípio do mundo
sequer o porque estou vivo
não é esse o meu intento

dou-te um copo de água
sem corantes nem conservantes
para que mates a sede
sem preocupações de dicionário

o mais são outras navegações

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(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2014)

postais da ria (117)


tempo

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ti zé costeira: o regresso da pesca

quando se perde tudo
o que a vida nos deu
para que serve mantê-la

para onde o ti zé foi
há-de haver uma bateira
uma cana de pesca

e tempo

muito tempo
que é essa a arte
do pescador

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sempre o conheci assim

(ria de aveiro; torreira)

o ti zé costeira partiu

postais da ria (116)


para o vilmar vidor

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a viagem do vilmar pode ser assim

aos amigos virtuais
uma amizade real os une

um nome um rosto
uma mensagem uma foto
uma vida para além da vida

por existirem num outro real
os amigos virtuais nunca morrem
nem sabem de partidas

por isso tu vilmar vidor
continuas comigo

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toda a beleza atravessa o oceano num barco para ate abraçar, vilmar

(torreira; regata das bateiras; s. paio; 2014)

postais da ria (112)


ontem no mundo

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ontem em paris
ontem em áfrica
ontem na américa
ontem na ásia

ontem no mundo

a morte esteve nas ruas
invadiu as matas
atapetou os desertos
semeou corpos

a morte enche os dias
do meu tempo
como encheu o tempo
todos os dias
em todas as geografias

a morte pela mão do homem
não poder ser imortal

(ria de aveiro, murtosa; cais do bico)