quentes e ….. (2)

a escoar água da bateira
foi um homem são
que escreveu o elogio da loucura
mas só um louco
pode escrever o elogio da sanidade

a ria dentro e fora
(ria de aveiro, torreira)
quentes e ….. (2)

a escoar água da bateira
foi um homem são
que escreveu o elogio da loucura
mas só um louco
pode escrever o elogio da sanidade

a ria dentro e fora
(ria de aveiro, torreira)
umbiguices

a espera, o espelho, calma ria, calmaria
tenho do umbigo a noção
exacta da sua função
foi por ele que me alimentei
no ventre de minha mãe
nada mais
agora aí está melhor ou pior
desenhado na barriga
sem quaisquer funções
não perco por isso tempo
em contemplá-lo
a olhar para o umbigo
muito boa gente anda
no dizer afiado e simples
da sabedoria popular
sentam-se na sua vidinha
sabem todos os nomes
que abrem portas e janelas
não incomodam para
não serem incomodados
como eu os entendo
umbigo só há um
e agora a mãe é outra

toda a beleza é pouca aqui
(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio, 2012)
algemas

alar da solheira
lembro-me de tudo
o que não quero
carrego comigo
memórias teimosas

silêncio, quero ouvir a ria
(torreira; alar da solheira)
palavras para mim

as palavras necessárias
livros eram três de histórias
para uma menina que nesse dia
seis anos breves fazia
a minha neta mais nova
a rosarinho
junto um postal em forma de flor
e palavras do avô
ao telefone
o livro de que gostei mais foi o da flor
porquê
quis saber
tinha palavras para mim

há palavras à espera
(ria de aveiro; torreira)
digo

a limpidez das palavras
o serem assim
todas para todos
não quero explicar a luz
o princípio do mundo
sequer o porque estou vivo
não é esse o meu intento
dou-te um copo de água
sem corantes nem conservantes
para que mates a sede
sem preocupações de dicionário
o mais são outras navegações

(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2014)
tempo

ti zé costeira: o regresso da pesca
quando se perde tudo
o que a vida nos deu
para que serve mantê-la
para onde o ti zé foi
há-de haver uma bateira
uma cana de pesca
e tempo
muito tempo
que é essa a arte
do pescador

sempre o conheci assim
(ria de aveiro; torreira)
o ti zé costeira partiu
para o vilmar vidor

a viagem do vilmar pode ser assim
aos amigos virtuais
uma amizade real os une
um nome um rosto
uma mensagem uma foto
uma vida para além da vida
por existirem num outro real
os amigos virtuais nunca morrem
nem sabem de partidas
por isso tu vilmar vidor
continuas comigo

toda a beleza atravessa o oceano num barco para ate abraçar, vilmar
(torreira; regata das bateiras; s. paio; 2014)
asas tivera

como pedras palavras
onde rios nasciam
desinventam caminhos
cortam raízes
resistir começa a ser
urgência de partir
asas tivera

(torreira; regata do s. paio; 2014)
o nosso tempo

deixo-te estas imagens
semeadas de velas
guarda-as como coisa tua
este é o nosso tempo
dentro de todo o tempo

(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2010)
ontem no mundo
ontem em paris
ontem em áfrica
ontem na américa
ontem na ásia
ontem no mundo
a morte esteve nas ruas
invadiu as matas
atapetou os desertos
semeou corpos
a morte enche os dias
do meu tempo
como encheu o tempo
todos os dias
em todas as geografias
a morte pela mão do homem
não poder ser imortal
(ria de aveiro, murtosa; cais do bico)