postais da ria (143)


joão manuel brandão (1)

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das muitas artes de pesca que ainda se praticam na ria e que pude acompanhar de perto, a arte da “cabrita alta”, para apanhar bivalves é, sem dúvida, a mais dura.

com o joão manuel brandão e o joão manuel dias, em 2012, pude ver de perto o sofrimento que provoca no mariscador.

as fotos que vou publicar são do joão manuel brandão e mostram bem o esforço que se lhe espelha no rosto.

coluna, joelhos, braços, pernas, todo o corpo é uma máquina que se desgasta nesta arte duríssima e que, mais dia menos dia, os leva ao bloco operatório ou à fisioterapia.

parca paga, enorme o desgaste, maior a despesa.

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(ria de aveiro; torreira; cabrita alta; 2012)

postais da ria (141)


revisito-me

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corre a rede por entre os dedos

correm lestos os dias
por entre os dedos
aragem breve subtil

súbito
temporal
de tantos havidos

fui neles o mais
que soube

assisto-me sem
críticas de

revisito-me

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com o salvador belo, no meio da ria

(ria de aveiro; torreira; largar da solheira)

 

postais da ria (140)


assim o vento

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marginal aqui, incomodo

sou o que o vento
levará ao mar
depois de tanta terra

o meu tempo é
não foi nem será

é
e serei nele
os que comigo

chego súbito
como quem parte
sem despedida

assim o vento

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a bandeira da diferença

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio, 2014)

postais da ria (139)


pão parco

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safar as redes da solheira para a plataforma

no longe quem sabe
o futuro
um barco meses no alto

um salário nos dedos
rasgados pelo gelo
redes cordas espinhas

sonhar amanhã
um destino diverso  deste

estagnado na beleza inútil
de onde um pão parco

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fosse o peixe limo e boa a pescaria

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)

postais da ria (135)


a capa

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o salvador e o falecido pai, ti domingos, cirandam berbigão

não lhes conheces
o rosto o nome
o quanto

à mesa saboreias
o que deles

olhas os registos
estudas contrastes
enquadramentos

outro repasto
para outro prazer

regressarás quando
só porque viste
saboreaste sentiste

mas não lhes sabes
o nome o rosto
a vida

não contas a estória
lês do livro a capa

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as cores da ria não dizem tudo das suas gentes

(torreira; cirandar)

postais da ria (134)


ser feliz aqui

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caminho pelo olhar
e sonho

ignoro o por detrás
e fico-me

pela superfície vazia
onde tudo

pode ser o que eu
quiser

despedi da paisagem
o ruído

das gentes e seus dramas
esqueci

o indesejável saber da
injustiça

inventei ser feliz aqui

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(torreira; porto de pesca)

postais da ria (133)


parabéns amélia

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o silêncio ouve-se

um alarme soou
no telemóvel
a minha memória
depende dele

mas
hoje não te telefono
sei que não atendes
não atenderás mais

escrevo-te
ouço-te vejo-te
resistes
com a energia
que só tu

“por favor
não me ponham de baixa”

não
não foste tu que desististe
tu nunca desististe de nada
foi a vida que desistiu de ti

parabéns amélia
quero que saibam
que hoje fazes anos

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um postal para a amélia

(torreira)