os moliceiros têm vela (281)


carta aos resistentes

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não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos

admiro que ainda
perguntas-me como

só encontro uma palavra
amor

assim a terra
o entendesse

não se darem as mãos
não serem um
habitado por muitos

não é sonho
é viver ou morrer

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(regata do bico; 2017)

os moliceiros têm vela (279)


eu tenho um sonho

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como os barcos
assim fossem os homens
não os que neles
que maiores ainda são

dessem-se as mãos
as vontades os quereres
fizessem-se actos
as palavras ditas semeadas
esparsas solitárias

soubessem-se moliceiros
todos
diriam em voz de se ouvir

“somos esta terra
a sua memória o seu futuro
merecemos mais”

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(murtosa; regata do bico; 2017)

os moliceiros têm vela (246)


em louvor do moliceiro

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o mestre zé rito e o avelino

fazem os homens
o barco que os faz
e no fazerem-se
são mais que eles

queria dizer-te
que o teu tamanho
como escreveu pessoa
é o tamanho do teu sonho

e tu
oh homem pequeno
de trazer por casa
se não fores barco
não serás sonho
nem terás tamanho

tenham piedade de ti
que eu não

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ilusão o serem os homens menores que o barco, porque iguais

(torreira; agosto de 2016)

postais da ria (134)


ser feliz aqui

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caminho pelo olhar
e sonho

ignoro o por detrás
e fico-me

pela superfície vazia
onde tudo

pode ser o que eu
quiser

despedi da paisagem
o ruído

das gentes e seus dramas
esqueci

o indesejável saber da
injustiça

inventei ser feliz aqui

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(torreira; porto de pesca)