postais da ria (178)


boas fotos

0 ahcravo_DSC_8536

chegaste agora
não sabes os nomes
não conheces as histórias
trazes contigo uma máquina de fotografar
olhas e encontras o motivo

disparas repetidas vezes
gostas do que viste e registaste
ignoras tudo o que para além do registo
desfrutas do olhar e sorris
quando lês o exif

e se
a perspectiva real for inversa da registada ?
e se
aquele homem ao fundo tiver nome ?
e se
o que ele traz no braço for parco para tantas horas
de esforço quase insuportável ?

e se
em vez de olhares e fazeres (digo eu)
um registo interessante de perspectiva
procurasses respostas para o que registas ?

então
não estarias aqui de férias em busca de imagens
serias mais um na comunidade e isso
meu amigo aqui pode ser perigoso

boas fotos

0 ahcravo_DSC_8536 c

(torreira; junho; 2016)

postais da ria (171)


hoje sou âncora

0 ahcravo_DSC_8806_joão gordo bw

o joão gordo a cirandar

já não procuro as raízes
onde a árvore
encontrou a terra e se fez

bem fundo
na água salobra da ria
no mar da torreira

no nome herdado
não o do cartão
mas a alcunha

mais que cravo
sou gorim

quem se lembra
da ti apolónia
do gorim?

serei o último
nesta terra que os viu nascer
e pouco ou nada
deles sabe

em newark
os cravos gorins são
memória emigrada
os últimos também

hoje sou âncora
varada na areia de uma praia
condenada ao abandono

0 ahcravo_DSC_8806_joão gordo

uma caixa de fruta, o fundo alterado e …. temos uma ciranda e a criatividade do pescador

(torreira; junho, 2016)

postais da ria (170)


0 ahcravo_DSC_8378_cirandar_henrique cunha bw

o ti henrique cunha a cirandar

 

ainda há força nos braços
depois de horas
a arrastar a cabrita pelo lodo

a dança da cabrita
é violenta
o fruto é cada vez menos
abundam as conchas
onde antes bivalves

homens mulheres jovens
mais velhos
todos todos caminham
no lodo
parecendo ao longe
que sobre as águas

é tempo agora de cirandar
depois escolher
e no fim vender ao preço

que o comprador disser

0 ahcravo_DSC_8378_cirandar_henrique cunha

o ti henrique cunha a cirandar

(torreira; junho; 2016)

 

 

postais da ria (169)


pai e filho

(ensino-te a arte
que me ensinaram
dou-te o amor
que me deram
de pai para filho)

0 ahcravo_DSC_8384 bw

o nuno (filho) enche a cabrita que o pai (nuno) segura

gostava que houvesse
futuro
por onde os meus olhos
ainda

gostava de te dizer
de pai para filho
deixo-te um amor
uma terra uma gente

mas sei
sinto
que me fico
por estas palavras
por este saber que

não há futuro aqui

0 ahcravo_DSC_8384_nuno+nuno cunha

pai e filho, a mesma arte

(torreira; junho, 2016)

pai e filho têm o mesmo nome, nuno. pai e filho partilham a arte. até quando?

postais da ria (154)


rapar a ria

0 ahcravo_DSC_4741 bw

com um balde e um pequeno ancinho, na maré vazia, nos cabeços em seco ou com pouca água a cobri-los, apanhava-se a amêijoa japónica, o berbigão.

ao longe, nada mais vês que um casal que parece passear por sobre as águas, povoando o silêncio com as suas vozes, que não ouves mas imaginas

uma paisagem belíssima, um lugar onde o silêncio se ouve e os olhos se limpam da sujidade urbana.

ajoelham-se, pousam o balde, pegam no ancinho e começam a “rapar” a lama da ria. dirias como se batatas, mas aqui, na lama, são amêijoas que colhem.

horas seguidas, tantas quantas a maré permita, que o corpo, esse terá de aguentar.

sobreviver aqui é sobre-utilizar o corpo, desgastá-lo, moê-lo, consumi-lo.

e tudo em silêncio vai pingando para os bolsos dos mesmos, dos que não estão na fotografia.

a japónica deu de comer a muita gente durante dois anos depois, num inverno mais longo e chuvoso, as águas adocicaram e morreu. dela pouco ou nada resta.

os homens e as mulheres, continuam a caminhar e a rapar a ria, são menos, a colheita é pobre, vivem do que a ria ainda dá.

0 ahcravo_DSC_4741

(torreira; 2012)

postais da ria (144)


raiva de não ser faca

00 ahcravo_DSC_9863 hc
regresso ao essencial
à dureza da rocha
ao sal colado ao corpo

ao povoamento da ria
terra de pão incerto
mãe do sorriso sofrido

o esqueleto exposto
à rudez da vida
sem molduras coloridas

raiva de não ser faca

(torreira; cabrita baixa; 2012)

quando “japónica” abundou na ria e matou a fome a muita gente