o desígnio


conquistar os dias
um a um
vencer-se
para vencer
erguer-se

falo de homens
dos que muitos
a bordo de barcos nasceram
neles foram criados
e homens se fizeram
 
falo de moliceiros
nome dos homens
e dos barcos
que ambos se confundem
na labuta e no tempo
 
conquistar o futuro
sendo no presente
esse o desígnio

(regata da ria; 2011)

o moliceiro é bandeira


à vara ou à vela, são dois dos modos de impulsão mais vulgares do moliceiro
unem-se os homens
dão-se as mãos
fazem-se nós
limpa-se a sombra
renasce-se

o moliceiro
é bandeira
amor paixão
modo de vida foi
de memórias pleno
mais que eles
é todos os que antes o foram

uniram-se os homens
cuidem-se os que
ti zé rebeço, um homem da ria, a ria feita homem

regata 2012_os rostos da indignação


abílio carteirista ( antigo moliceiro)

manuel valente
(descendente de moliceiros, e antigo moliceiro)

josé rito
(antigo moliceiro, descendente de moliceiros, actualmente mestre construtor de moliceiros e barcos tradicionais da ria de aveiro)

josé rebeço
(o mais antigo moliceiro da murtosa)

josé manuel oliveira
(descendente de moliceiros, é o único pintor de barcos moliceiros)

 

foram estes os homens que, perante os órgãos de comunicação social, assumiram a indignação dos moliceiros, quando souberam do cancelamento da regata de moliceiros torreira/aveiro 2012

todos os contactos necessários à divulgação do desalento destes homens ficou a dever-se a etelvina almeida, estudiosa e verdadeira amante dos barcos tradicionais da ria de aveiro.

para ela um abraço de todos os puderam exprimir a sua indignação aos meios de comunicação e dar a conhecer a triste realidade com que foram confrontados.

moliceiros em extinção_sic_2009


moliceiro em construção no estaleiro velho do mestre zé rito

http://videos.sapo.pt/AbMEzvCvnndZYrtrciyg

daí para cá, de nada serviu este alerta e este ano (2012), a tradicional regata torreira/aveiro foi cancelada.

seria bom apurar as responsabilidades deste cancelamento, uma vez que o orçamento REAL, cerca de 8.000 euros, não é justificação.

será que houve orçamentos surreais? será que houve conhecimento do cancelamento e não comunicação aos moliceiros?

é tempo de verdade

pergunta estúpida?


escuta
ouves o rumor das águas
o quebrar das ondas
no casco
as velas pandas batendo
de tanto vento

o vento sopra do norte
o barco voa
a meta está próxima
chega em primeiro
ganhou a regata
 
depois
depois houve que o vender
os apoios não chegavam
para o manter
 
depois
depois não querem que haja regatas
 
é esta a história
de como os moliceiros
por falta de apoio
vão desaparecendo
 
por vezes pergunto-me
porque é que no brasil em vez
de casas tradicionais portuguesas
não construíram moliceiros

(regata da ria; 2010)

estranha forma de pensar cultura


o vento
o norte pai dos dias quentes
da costa ocidental
nesse dia
não se fez sentir

lentos os barcos
sulcaram a ria
sem pressas de tempo
como se dele não soubessem

horas muitas
quase noite
quando a aveiro chegaram
mal sabiam então
que no ano seguinte
seria noite
logo pela manhã

e a regata
a regata
seria negra

que este é um país
onde se enterram os vivos
por ser mais fácil
cuidar dos mortos

chamam-lhe alguns
cultura

(regata da ria; 2011)

em 2012 a regata seria cancelada “por falta de verbas”

como se descarregava o moliço no bico


dos moliceiros e do moliço

até meados da década de 60 do século passado, os montes de moliço cobriam todo cais do bico.

segundo os dados coligidos pelo comandante rocha e cunha, no livro " notícia sôbre as indústrias marítimas na área da jurisdição da capitania do pôrto de aveiro" (1938, gráfica aveirense)

" .... em 1938 existiam na ria 1750 moliceiros, que rendiam 3.600.000$00.

pesca lagunar no mesmo ano:

nº de pescadores- 1.255; nº de redes - 1.354; rendimento - 1.981.582$00."

percebe-se assim a importância que o moliço tinha na economia da ria de aveiro.

era tal a quantidade apanhada que houve que estabelecer um período de defeso, correspondente ao da desova e criação dos peixes que escolhiam a ria como maternidade.

da memória

da ilha do amoroso, uma das três grandes ilhas existentes na ria de aveiro -- monte farinha, testada e amoroso -, era co-proprietário um tio avô meu (césar cravo, também conhecido por césar gorim), o que me permitiu assistir a uma das mais belas cenas da minha juventude: o pagamento dos moliceiros e mercantéis.

todos os domingos, no fim da missa, com a "roupa de ver a deus", os donos dos barcos dirigiam-se a casa do meu tio avô, que os esperava à porta, na eira, com uma garrafa de vinho fino, um cálice e uma saco de pano. um a um iam chegando e cada um dizia: sr. césar são tantas barcadas de moliço, tantas de arrolado, tantas de junco, o que dá... e o pagamento era feito para dentro do saco e anotado. 

havia dois tipos de moliço: o que era apanhado no fundo e o que andava à superfície da ria (arrolado), tinham preços diferentes, o primeiro era mais caro.

o junco, era apanhado em terra, com gadanhas, e carregado por mercantéis.

ambos serviam para adubo, embora o junco fosse utilizado para fazer a cama dos currais, antes de ser usado como adubo.
 
do bico

nos locais em que não havia cais para descarregar o moliço ele era carregado directamente para os carros de bois, que entravam na água, ou depositado nas praias onde ficava a secar.

um dos instrumentos utilizados para a descarga era a "forquilha", servia para "atirar" o moliço para cima do carro de bois, onde era depois ajeitado pelo comprador. O outro era o "engaço" que servia para puxar o moliço.

um barco carregado tinha feito uma "maré de moliço".

do homem

chama-se josé rebeço, esteve muitos anos emigrado no canadá, depois de abandonar a vida de moliceiro.

de regresso à murtosa, não resistiu a recuperar um moliceiro e, com ele, participar em regatas e recriar o voltar a apanhar moliço. moliço que já não há, o que havia nesse ano era uma alga, a que os pescadores chamam "cabelo de cão". foi essa que o ti zé rebeço apanhou e levou para adubar as suas terras de cultivo

a tripulação normal de um moliceiro é de dois homens mas, sozinho, josé rebeço resolveu o problema recorrendo a um pequeno motor, colocado na beirada do barco.

durante breves instantes o cais do bico remoçou

não queremos que tudo acabe assim


o barco moliceiro, princesa da ria

 

de todos os barcos que sulcaram, ou sulcam ainda, a ria o moliceiro é sem dúvida o mais belo. atrever-me-ia a dizer que é em simultâneo uma obra de arte e um instrumento de trabalho.

perfeitamente adaptado ao trabalho na ria, em que a as águas de pouca profundidade são predominantes, o moliceiro é um barco de fundo chato com um pontal de 40 a 45cm, navegando, quando carregado, com os bordos ao nível da água.

 

o facto de o pontal (distância entre o convés/bordo e o fundo) ser tão pequeno, facilita o trabalho dos moliceiros que, para arrancar o moliço do fundo, arrastavam os ancinhos os quais, depois de carregados tinham de ser erguidos e despejado o moliço dentro do barco. quanto menor o pontal, menor o esforço dispendido.

se na sua construção de base se encontra uma adaptação ao meio onde se move, e ao fim a que se destina, há porém factores que nada tem de utilitário: a forma da bica da proa e os painéis pintados à proa e à proa.

o que é que terá levado a que o moliceiro tenha uma bica da proa tão curva? Tão semelhante à da barca de mar (da arte xávega)? não há qualquer finalidade utilitária nestes pormenores, são puros adornos.

com um comprimento entre 14,50m e 15m (Drª Ana Maria Lopes – Moliceiros : A Memória da Ria) e uma boca entre os 2,50m e os 2,60m, o moliceiro é um barco de linhas esbeltas e extremamente elegantes: uma jovem princesa que se passeava pela ria.

 

é esse o seu encanto, a causa da paixão de todos os que nele trabalharam, passearam ou meramente contemplaram. é impossível ficar indiferente a uma princesa. por amor a ela às regatas todos se entregam, sem contrapartidas que não a emoção.

os moliceiros e apanha do moliço

de acordo com “ Relatório Oficial do Regulamento da Ria”, de que é co-autor o então capitão-tenente jayme affreixo, publicado em 1912, os números relativos à apanha de moliço eram os seguintes:

 

 1.883 …. 1.342 barcos

 1889 …. 1.749 barcos —— 957 moliceiros ——- 2.687 lavradores

 1911 …. . 1.054 barcos —– 875 moliceiros ——- 1.633 lavradores

 

“A estatística de 1.883 dá 158:000$000 réis para o valor anual da colheita ao preço médio de 1$250 réis a barcada.

 

o cálculo do seu rendimento pode fazer-se de acordo com o seguinte modo:

“Existem 1.500 barcos (aos 1.054 registado na capitania acrescenta 400 a 500 não registados), cada um dos quais, nos 3 meses de Agosto, Setembro e Outubro, à razão de uma barcada por dia de trabalho, colhe seguramente 70 barcadas, cujo preço médio não é inferior a 1.$800 réis; e, no resto ano, à razão de uma barcada por 4 ou 5 dias, colhe 30 barcadas ao preço médio de 4$000 réis. Igualando porém este preço ao anterior, para desconto de barcos de lavradores que nesta segunda época não exercem a apanha temos: 1.500 barcos, com 100 cargas cada um, a 1$800 réis, ou seja um rendimento anual de 2.700$000 réis”.

ainda de acordo com o mesmo relatório:

 

“ Em 1907 e 1908 o rendimento total da produção marinha da ria de Aveiro é:

 

Peixe ………. …………………………54.000$000 réis

Peixe de viveiros ………………….……3.000$000 réis

Algas (moliço) valor superior a …….. 270.000$000 réis

Juncos, valo superior a ………. 73.000$000 réis

Total ………………………………… 400.000$000 réis”

 

por aqui se vê o valor que representava o moliço na riqueza produzida pela ria.