câmara de aveiro cancela regata de moliceiros 2012


da esquerda para a direita: miguel matias (proprietário do pardilhoense), joaquim ligeiro (moliceiro), zé rito (mestre construtor de barcos e moliceiro); zé rebeço (moliceiro), zé oliveira (pintor), necas lamarão (pintor e pai de zé oliveira), emanuel oliveira (pintor), manuel valas (moliceiro)

indignação hoje na torreira

todos os anos realiza-se a maior regata de moliceiros da ria de aveiro, ligando a torreira a aveiro, patrocinada pela câmara municipal de aveiro, integrando a “festa da ria”.

este ano foi marcada para o próximo dia 14 de julho e todos, os cada vez menos, proprietários de barcos moliceiros, iniciaram as despesas necessárias à participação na regata: pintura e reparações, onde gastaram sempre para cima de 1.000 euros.

qual não é o espanto quando hoje, dia 6, no estaleiro do mestre zé rito, ao ler o correio da manhã, o pintor zé oliveira, depara com a seguinte notícia (meio disfarçada): “não vai ser possível realizar as regatas porque não há verbas”, explicou maria da luz nolasco, vereadora da cultura (câmara municipal de aveiro) …….

mas que verbas srª vereadora? os donos dos moliceiros já as dispenderam, o custo total com a regata de moliceiros – feito no estaleiro com os moliceiros e mestres presentes – foi estimado, por cima, em 8.000 euros, tendo em conta os barcos que participariam na regata, os subsídios a atribuir e os prémios a distribuir.

será que a cultura não vale 8.000 euros? o que é a festa da ria sem a regata de moliceiros? quem vai apoiar os proprietários que já realizaram a despesa? que falta de consideração pelos homens da ria a srª vereadora demonstrou ao não os contactar com tempo e fazê-lo através de uma notícia de jornal, num parágrafo perdido no meio?

o moliceiro é o mais belo barco do mundo, aveiro apregoa ser a pátria do moliceiro e depois…. depois diz que não há dinheiro para a regata.

acabar com a regata é ajudar a acabar com os poucos moliceiros que restam, menos 3 este ano que no ano passado, é matar o ícone de todo uma região.

a respeito de camões, escreveu almada negreiros, “este é o país que enche a boca de camões e onde camões morreu de fome”. volta almada e diz de aveiro o que disseste do país.

a pouco e pouco matam a história deste povo e um povo sem história, não existe. façam-no, se assim o querem, mas assumam-no, não sejam hipócritas.

uma festa da ria sem regata de moliceiros é uma mesa posta onde não é servida qualquer refeição.

como diriam os mais velhos “haja respeito”, que esta gente merece, é dela a bandeira que ergueis bem alto, enquanto calcais quem a fez. é este o vosso modo de estar.

mas os moliceiros são gente e de bem, por isso sentem-se e farão sentir que não são merecedores desta prepotência e ignorância.

há lama basta no leito da ria, mas também há muita fora dela em bons gabinetes.

o poema


moliceiro zé rito_torreira
o poema
nasce devagar
sem pressas
de ser
paciente
vai juntando palavras
dando colorido
aos dias que habita

o poema
é uma criança ainda
quando brinca na brancura
do papel
e faz sorrir quem o lê

escuta
fala-se
entrega-se
procura-se em

isso lhe basta
e já foi

(torreira)

que povo é este ?


à espera . . .  e já se foram
talvez de palavras se faça
o discurso
mas com actos se concretiza
assim se faz o homem
tragam-me um

diz-me que terra é esta
onde já poucos morrem
porque menos nascem?
terra de partida
terra em que não há pobres
dizem
porque misérias muitas

os moliceiros esguios elegantes fermosos
os mais belos barcos do mundo
não eram barcos
eram casa
ave
pão na mesa

que povo é este que tem
de buscar as suas memórias
em arquivos de museus que não os seus
que povo é este que tão fraca gente
à frente tem

vou ainda ao meu encontro
no desencontro de estar aqui

(torreira e dois moliceiros que já não existem – nem o dono)

moliceiros, património ou propaganda?


O Pardilhoense é um barco moliceiro construído no ano de 1996, em Pardilhó, em casa do anterior proprietário, Sr. Carlos Vilar. Tem um comprimento de 14,70 metros e uma boca de 2,54 metros. Foi adquirido em 22 Dezembro de 2010 pelo Moliceiro da Costa Nova. Reconstruido pelo mestre Zé Rito em 2011, com madeira de pinheiro bravo para o tabuado e madeira de pinheiro manso para as cavernas. Foi lançado na água nos finais de Junho desse mesmo ano. A madeira de pinheiro bravo veio dos pinhais de São Vicente Pereira, e o pinheiro manso do pinhal de Leiria. Foram respeitadas as medidas do barco anterior e algumas cavernas: o restante foi totalmente feito de novo. Está registado no turismo de Portugal para passeios turísticos, tendo licença para transportar 21 pessoas, incluindo os 2 tripulantes. É o moliceiro mais moderno a operar na ria e um dos poucos a navegar à vela nos passeios turísticos. A sua vela maior tem cerca 80m2. Também já participou em inúmeras regatas. Foi recentemente pintado pelo artista Zé Manel. Os painéis são alterados regularmente com temas novos, para poder participar nos concursos de painéis que ocorrem em Aveiro e na Murtosa (Festa do São Paio). Tenta-se ser o mais criativo e original possível.

(texto de jorge bacelar)

 

 

 

 

mesmo ao lado um moliceiro em terra:

 

moliceiro do manuel valas

enquanto um é pintado para navegar outro procura novo dono!

é assim na terra que se diz  “pátria do moliceiro”.

afinal, património é investimento na memória ou propaganda balofa?

para os edis da murtosa é propaganda: por todo o lado se pode ler a frase emblemática, mas nada se faz para que os moliceiros continuem a navegar na ria. que apoios dá a câmara municipal aos donos dos últimos moliceiros, para os manterem a navegar? é verdade que a câmara tem um moliceiro, mas que faz com ele?

desditosos filhos que tal pátria tendes!

todos os anos moliceiros são vendidos para fora do concelho, por falta de capacidade financeira dos resistentes para suportar os encargos com a sua manutenção. todos os anos os responsáveis pelo município a isto assistem e continuam a usar, sem qualquer vergonha, a frase ” murtosa pátria dos moliceiros”.

e é verdade, a murtosa é de facto a pátria, os donos da casa é que puseram um letreiro à porta a dizer vende-se.

assim vamos por cá

o moliceiro é pessoa


painel do moliceiro “pardilhoense”
o artista traça meticulosamente
as linhas que nos trazem o rosto
a  memória das palavras
simples
das mensagens
complexas

dir-te-ei um livro
vogando sobre águas mansas
levando cultura na proa
pandas as velas
cheias de poemas
 
o moliceiro
é pessoa

(o pintor josé manuel oliveira a pintar um dos painéis da proa do moliceiro “pardilhoense”)

quem sabe o vento se levanta …..


são os mais pequenos 
mas também é deles a beleza

se houvesse vento

sobre as águas da ria
voariam aves diversas
belezas para os olhos de todos
despesas para os bolsos dos poucos que
ainda

olhaste e viste?
por detrás do moliceiro
cada vez menos
há homens
antigos moliceiros
homens com H do tamanho do mastro maior
da vela mais alta
homens que à ribalta dos média
levam os que a eles
migalhas dão

que este não é um poema
é uma promessa

o vento que hoje não houve
passará por aqui
e levantará outras velas
descobrindo como vamos
e de que fibra são feitos os homens da ria

(murtosa; regata do bico; 2010)