crónicas da xávega (223)


“Os intérpretes de vidas

…. Até que ponto podemos fiar-nos nos nossos amigos e conhecidos e sócios, nos nossos amores, nos nossos pais e nos nossos filhos? Quais as suas tentações e debilidades, ou o seu grau de lealdade e a sua fortaleza? …. E mais ainda: podemos prever que amigos vão virar-nos as costas um dia e converter-se em nossos inimigos? …. Podemos fiar-nos em nós, em que não seremos nós que mudaremos e nos viraremos e atraiçoaremos, que invejaremos um dia quem hoje mais amamos e não poderemos suportar o seu contacto nem a sua presença, e decidiremos reger-nos só pelo nosso ressentimento? …… “

(in Javier Marias, “O teu rosto amanhã”, 3º volume, “ Veneno e sombra e adeus” )

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depois de muita luta o barco ganhou o mar e fez o lanço

(praia de mira; 2010)

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depois de muita luta o barco ganhou o mar e fez o lanço

crónicas da xávega (220)


então farão postais

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vêm de longe as vozes
conheci algumas
respeitei muitas
conheci-os um pouco

homens mulheres
gente desta terra
de onde sempre
para o mar se partiu
e onde nem sempre
se regressou

ficou o mar
na areia varados
o barco e a arte
a companha renovada

até um dia
em que na praia vazia
deles só a areia
se lembrará

então farão postais

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(torreira; 2016)

crónicas da xávega (196)


tudo é nada

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quando tudo acaba
o que começa?

quando o ter sido
não voltará a ser
o que resta?

quando o barco
vencer o mar
nem sempre os homens
se vencem

no fim do fim
não serei nada

encontrei
uma concha na areia
no recuar da onda
peguei nela
senti-lhe a leveza
na palma da mão

tudo era eu
tudo é nada

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(torreira; 2016)