do amor
toda a escrita é
um acto de amor
assim o moliceiro
(torreira; regata do s. paio; 2012)
de como não devia ser
não sei se te sabes
se sou eu que te não sei
mas é nestes desencontros
que o presente morre
e se assassina o futuro
não me comovem as lágrimas
que não nascem das mãos
escrevo-te pregos e arame
instrumentos cortantes
ferramentas tuas de sangue fazer
o meu tempo é hoje
o teu também o será
mas são dias tão diferentes
(arribar; torreira; companha do marco; 2015)
a palavra que não quero
espero a palavra
por dentro das palavras
o sorriso demora a regressar
o tempo é nublado muito
não te perdoo o deserto
nem a lama que semeaste
a imagem só é a mesma
para os mesmos olhos
espero a palavra
por dentro das palavras
e não a quero
(ria de aveiro; torreira)
meditemos
um coelho corre atrás
de uma cenoura
a cenoura não pode correr
o coelho comeu a cenoura?
não porque apareceu
o dono da leira
onde estava a cenoura
correu com o coelho
e disse-lhe
aqui não comem lambões
houvesse mais donos assim
(torreira; regata do s. paio; 2014)
as mãos do meu país
as mãos do meu país
sangram o pão que comem
andam descaídas desempregadas
cansadas depois de tanto e agora
as mãos do meu país
falam pouco ouvem muito calam
há quem queira matar a memória
das mãos do meu país
as mãos do meu país
no domingo vão sair à rua
quero ouvi-las a dizer o que querem
as mãos do meu país
(torreira; companha do marco; 2015)
haja uma pedra
é tarde para deixar de ser
os rios não voltam à nascente
nem me arrependo de ter nascido
sou o que cada dia descobre
o inesperado vindo do imprevisto
e não o somos todos?
na teia urdida por mãos hábeis
a arte é fazer crer que a vítima é outra
quando a aranha mata os pais
o mundo é cada vez mais dos répteis bífidos
fracos imitadores de animais sangue quente
haja uma pedra
(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2012)
escorro água e sal
desfaz-se a pedra em água
corre por entre os dedos areia
as paredes tremem e é de vento
o telhado onde antes casa
digo-te que não mereço
como não merecem aqueles
a quem nada resta senão
o serem como são por não
poderem ser de outro modo
voltaremos um dia e será manhã
até lá esperamos que o sol
se ponha devagar
e seja noite quando for
escrevo-te do exílio de mim
da memória de um tempo outro
que já não existe nem voltará
ao passado o que dele é
o futuro dir-se-á no tempo certo
o vento é de sul
o mar entrou no barco
escorro água e sal
(torreira; companha do marco; 2015)