crónicas da xávega (98)


de como não devia ser

as dificuldades do arribar

as dificuldades do arribar

não sei se te sabes
se sou eu que te não sei
mas é nestes desencontros
que o presente morre
e se assassina o futuro

não me comovem as lágrimas
que não nascem das mãos
escrevo-te pregos e arame
instrumentos cortantes
ferramentas tuas de sangue fazer

o meu tempo é hoje
o teu também o será
mas são dias tão diferentes

a arte está em emendar a mão

a arte está em emendar a mão

(arribar; torreira; companha do marco; 2015)

postais da ria (102)


a palavra que não quero

os contrastes são claros

os contrastes são claros

espero a palavra
por dentro das palavras

o sorriso demora a regressar
o tempo é nublado muito

não te perdoo o deserto
nem a lama que semeaste

a imagem só é a mesma
para os mesmos olhos

espero a palavra
por dentro das palavras
e não a quero

faço as horas e os dias

faço as horas e os dias

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (148)


meditemos

manobrar um moliceiro é arte de navegar

manobrar um moliceiro é arte de navegar

um coelho corre atrás
de uma cenoura
a cenoura não pode correr

o coelho comeu a cenoura?

não porque apareceu
o dono da leira
onde estava a cenoura

correu com o coelho
e disse-lhe
aqui não comem lambões

houvesse mais donos assim

sei podes fazer festa pá!

sei podes fazer festa pá!

(torreira; regata do s. paio; 2014)

crónicas da xávega (97)


as mãos do meu país

mãos sofridas

mãos sofridas

as mãos do meu país
sangram o pão que comem
andam descaídas desempregadas
cansadas depois de tanto e agora

as mãos do meu país
falam pouco ouvem muito calam
há quem queira matar a memória
das mãos do meu país

as mãos do meu país
no domingo vão sair à rua
quero ouvi-las a dizer o que querem

as mãos do meu país

mãos

mãos

(torreira; companha do marco; 2015)

postais da ria (101)


haja uma pedra

toda a beleza num fragmento de tempo

toda a beleza num fragmento de tempo

é tarde para deixar de ser
os rios não voltam à nascente
nem me arrependo de ter nascido

sou o que cada dia descobre
o inesperado vindo do imprevisto
e não o somos todos?

na teia urdida por mãos hábeis
a arte é fazer crer que a vítima é outra
quando a aranha mata os pais

o mundo é cada vez mais dos répteis bífidos
fracos imitadores de animais sangue quente

haja uma pedra

sem elas a ria é um pântano

sem elas a ria é um pântano

(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2012)

crónicas da xávega (96)


escorro água e sal

o vento é de sul e levanta mar

o vento é de sul e levanta mar

desfaz-se a pedra em água
corre por entre os dedos areia
as paredes tremem e é de vento
o telhado onde antes casa

digo-te que não mereço
como não merecem aqueles
a quem nada resta senão
o serem como são por não
poderem ser de outro modo

voltaremos um dia e será manhã
até lá esperamos que o sol
se ponha devagar
e seja noite quando for

escrevo-te do exílio de mim
da memória de um tempo outro
que já não existe nem voltará

ao passado o que dele é
o futuro dir-se-á no tempo certo

o vento é de sul
o mar entrou no barco
escorro água e sal

eu fui ao mar

eu fui ao mar e o mar veio ter comigo

(torreira; companha do marco; 2015)

os moliceiros têm vela (146)


nada mais te resta

como se em bando

como se em bando

despede-te devagar
do sol

sustém os dias com mãos
ambas

colhe os frutos mais maduros
saboreia-os

guarda o paladar da ria
nada mais te resta

lembra-te da ria e da sua beleza

lembra-te da ria e da sua beleza

(torreira; regata do s. paio; 2015)