do medo
do desconhecido
só sei uma coisa
urgente conhecê-lo
é tempo de outras naus
(torreira; regata do s. paio; 2013)
o meu amigo ti zé costeira
nos últimos anos
caminhava pesado até à bateira
a cana de pesca bengala
remava atá ao meio da ria
voltava com algum peixe para o almoço
os dias repetiam-se e ele dentro deles
dentro do silêncio dentro da bateira
na ria
primeiro arrumou a bateira
cobriu-a com plástico
depois morreu a mulher
o plástico começou a rasgar-se
e ele
falei-lhe quando já não era
mostrou-me a casa os troféus
contou-se por momentos
viveu
não sei como estará numa casa
entre quatro paredes auxiliares
refeições certas medicação a horas
um sofá a cama o silêncio os outros
onde a ria?
eu vejo-o sempre lá no meio
a dar vida às águas mortas
(torreira; 2015)
de como não devia ser
não sei se te sabes
se sou eu que te não sei
mas é nestes desencontros
que o presente morre
e se assassina o futuro
não me comovem as lágrimas
que não nascem das mãos
escrevo-te pregos e arame
instrumentos cortantes
ferramentas tuas de sangue fazer
o meu tempo é hoje
o teu também o será
mas são dias tão diferentes
(arribar; torreira; companha do marco; 2015)