postais da ria (99)


eu só termino em mim

corrida dos chinchorros, os treinos

corrida dos chinchorros, os treinos

os primeiros passos
não os últimos
as primeiras palavras
a palavra o nome
o herdado

vi o que vias e procurava
outros olhares
mas era sempre o teu
o olhar recto

sou porque foste e me deste
serei porque assim te vi ser
não pelo que me dizes hoje

queria continuar a ouvir-te
mas eu só termino em mim

momentos para meditar

momentos para meditar

(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)

os moliceiros têm vela (145)


vive e sonha

o equilíbrio natural da ria

o equilíbrio natural da ria

nada é tão certo
como a incerteza

sê tu no instante
em que a ave é barco
e os rios correm serenos
por entre margens largas

escuta o rumor do vento
a beleza dos flamingos

vive e sonha

o moliceiro "marco silva" desliza por um canal da ria, sob o olhar atento dos flamingos

o moliceiro “marco silva” desliza por um canal da ria, sob o olhar atento dos flamingos

(ria de aveiro; esteiros do bunheiro)

o

crónicas da xávega (94)


fico com os barcos

como se ave fora e voasse

como se ave fora e voasse

quando a faca corta a água
o sangue é incolor
como se o mar chorasse

despeço-me de ti
porque já não és
e eu que fui contigo
sou agora outro

fico com os barcos
reaprendo a navegar

navegar é preciso....

navegar é preciso….

(torreira; barco de mar maria de fátima; 2015)

postais da ria (97)


o lixo debaixo do tapete

não é fácil trabalhar aqui

não é fácil trabalhar aqui

lê tudo ao contrário
as horas da beleza
não são as únicas
horas da realidade

procura os homens
pergunta-lhes o como
quando e para quê
são eles o teu relógio
procura-os nas horas más

esconderam o lixo
por debaixo do tapete
na ilusão de terem limpo a casa
não sejam os teus olhos
tapete novo em chão gasto

dou-te a carne dos dias
para que sintas na boca o sangue
dos que os habitam

reparte-a

o meu amigo aú vai amarrar a bateira

o meu amigo aú vai amarrar a bateira

(torreira; cais do guedes; verão, 2015)

crónicas da xávega (92)


o meu tempo é este

o chegar do saco

o chegar do saco

ficar destes dias a memória
onde rostos gestos sentires
os nomes os amigos
o ter sido aqui tanto

difuso o nevoeiro
começa a cobrir tudo
em breve quase nada
restará

o meu tempo é este

o chegar do saco

o chegar do saco

(torreira; companha do marco; 2013)

postais da ria (96)


palavras assassinas

levará 2 horas largar e a lar, poderá levar um dia a safar. é assim a solheira

levará 2 horas largar e a lar, poderá levar um dia a safar. é assim a solheira

pacientes as mãos sempre elas
limpam das redes os caranguejos
ferem-se esmagam quebram
preparam sábias nova pescaria

assassinas as palavras
entraram pelas malhas dos dias
depositadas por mãos alheias
saberes de vícios urbanos
habilidosos hábitos aprendidos

confundiste-as com
as malhas dos teus dias
como pescarás agora?

as garras ferem os dedos. o caranguejo infesta a ria

as garras ferem os dedos. o caranguejo infesta a ria

(torreira; varadouro do estaleiro do zé rito; 2015)