os moliceiros têm vela (77)


dos gatos

em bando vogam

em bando vogam

à janela o gato sábio
lambe os bigodes fartos
queda-se imóvel
no gastar dos dias

sereno constrói o salto
imagina a presa sem pressa
espera espera espera

crítico
não desespera
o gato

gosto do laborioso rato

toda a beleza é aqui

toda a beleza é aqui

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (75)


um nós novo

nós

nós

traz-me tudo menos
esse olhar perdido
onde já nada navega
senão o por dentro
de coisa nenhuma

o vazio é um caminho
não o inicies

empresta-me os teus olhos
deixa que os leve até onde
fomos sol e sombra
ombro a ombro os dias galgados
na cumplicidade concebida
de afectos

o vazio é um não lugar

o braço que te abraça
suporta o peso insuportável
dos anos sobre ti

és tu e eu
um nós diverso
em busca de

nós sempre

nós sempre

(ria de aveiro; regata da ria; 2009)

os moliceiros têm vela (74)


ausente

ahcravo_DSC_6788 regata moliceiros bico bw

o rosto parado
a expressão ausente
o corpo prisão

resta o que resta
não será muito nem pouco
tão só o que ainda

perdido o sorriso
na voz treme a solidão
ouve-se o medo

é ensurdecedor

ahcravo_DSC_6788 regata moliceiros bico

(murtosa; regata do bico; 2009)

os moliceiros têm vela (73)


esperar

ahcravo_DSC_2039 bw

aprender o tempo
no contar pelos dedos

lento muito lento
o movimento

parados os olhos
imóvel o rosto
sem expressão
esperar esperar
não há primavera
nem andorinhas

aprender o corpo
no contar do tempo

o movimento
lento muito lento
até que parado

ahcravo_DSC_2039

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

postais da ria (71)


provocar é preciso

toda a imagem é uma pergunta por responder

toda a imagem é uma pergunta por responder

não procures no que lês
o eu que o escreveu
procura-te

aceitares ou recusares
as palavras lidas
é seres tu

será sempre morta a escrita
que não provoque no leitor
repulsa aceitação ou
no limite da comunhão o
“porque não fui eu?”

se te sentas nas minhas palavras
e adormeces
de nada serviu tê-las escrito

não me procures no que leste
procura-te porque o fizeste

o início podia ter sido assim

o início podia ter sido assim

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (72)


das causas

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

como se bailassem…. e bailam

não tenho ilusões
procuro caminhos
tento não ser mais um

calo o silêncio
procuro a voz certa
a cada instante

ser homem de causas
é a causa de estar aqui

há uma ria por dentro da ria, a dos moliceiros

há uma ria por dentro da ria, a dos moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros têm vela (71)


aos moliceiros

mete água? escoa!

mete água? escoa!

homens inteiros
até ao fim
a palavra na mão
que aperta

homens de fibra
feita na lide
dos dias de norte
terras muitas
escritas no corpo
sofridos dias

levarão com eles
mais que o corpo
a história da terra

água que entra tem de sair

água que entra tem de sair

(ria de aveiro; regata de ria; 2014)