os moliceiros têm vela (91)


o insuportável peso da luz

assim vejo

assim vejo

o que nos separa é o essencial
isso só se torna evidente se
sobre o branco inscrevermos
o traço exacto das fronteiras
onde os desejos se dividem

fundamental reduzir o acessório
à sua verdadeira dimensão
dispensável

a luz tudo atravessa para se
fazer dia

assim te iludo

assim te iludo

(torreira; regata do s.paio; 2010)

crónicas da xávega (58)


crescer para o mar

o arrais marco, homem dos sete ofícios

o arrais marco, homem dos sete ofícios

ajoelha-se o homem para o trabalho
minucioso do tecer das malhas

arte secular aprendida no areal
onde por vezes o pão chega prateado
espalhando sorrisos e esperança
que nem sempre a lota contempla

ajoelha-se o homem e pede ao senhor
pão que baste para tão sofrido suor

erguer-se-á o homem e crescerá
para o mar

o arrais marco silva

o arrais marco silva

(torreira; companha do marco; 2013)

os moliceiros têm vela (88)


é

o  moliceiro a. rendeiro do ti zé rebeço é o primeiro

o moliceiro a. rendeiro do ti zé rebeço é o primeiro

recuso as palavras redondas
nascidas
de bocas onde muitas línguas

só conheço o caminho agreste
parco de sombras
linha recta entre hoje e o devir

prefiro a fresca água das fontes
às bebidas finas das mesas grandes
onde banquete é fome de muitos

recuso os cemitérios de vivos
não é fácil nem difícil
é

quem disse que ganhar é fácil?

quem disse que ganhar é fácil?

(ria de aveiro; regata da ria; 2014)