os moliceiros têm vela (96)


retrato de uma primavera

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contam com a memória
não a lembrança incómoda
mas o esquecimento de

são os senhores da guerra
e os fazedores da paz
depois de a terem deflagrado

facturam sempre e com tudo
vendem o sangue
que fizeram derramar e é negro

foram eles que inventaram
o espectáculo
que hoje denunciam bárbaro

moram sempre longe
estão sempre perto
e acreditam em deus

que não lhes perdoará

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(torreira; regata do s. paio; 2012)

os moliceiros têm vela (95)


gorim

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escrevo gorim
e sou mais do que eu

são pescadores da xávega
e da ria onde companha tiveram
na azambuja um esteiro
houve com o seu nome
murtoseiros sempre
até nas partidas sem regresso

escrevo gorim
com m de murtosa
termino assim

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(torreira; regata do s. paio; 2010)

os moliceiros têm vela (94)


postal de longe

a chegar a aveiro

a chegar a aveiro

quisera não gostar de ti
de te sentir
tão por dentro de mim
como se eu

quisera não te saber
o passado
preso no meu nome
família de

quisera não gostar de ti
assistir
de olhos secos e mudo
cúmplice
moderno sobrevivente

quisera não me deixasses
assim sem terra
nem raízes nem história
deserdado de mim

se é este o teu futuro
seja
mas não contes comigo
nele

antes não te ver mais
para te ofertar como foste

chamam-lhe recachia

chamam-lhe recachia

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (93)


retrato com moliceiros

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de grande tem a terra
o cemitério a saudade
o silêncio

as casas vazias muitas
para retornos breves
a ausência

há moliceiros a vogar na ria
nunca o longe foi tão perto

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(torreira; regata do s. paio; 2014)

os moliceiros têm vela (92)


dos espectadores

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o poeta sentou-se
não era ainda o tempo das palavras
mas o de olhar e sentir

o tempo passou
e o poeta sentado mudo e quedo
espreitando o mundo

passaram as palavras
passou o poeta
ficou apenas o tempo

condenação de espectador
é ser nada
quando pensou ser tudo
até poeta

ahcravo_DSC_4213torreira; regata do s. paio; 2012)

postais da ria (79)


desconto-me

maré vazia na ria

maré vazia na ria

conto comigo e poucos mais
desconto muitos com que contava
por ter contado mal ao contá-los

conto ainda com o suficiente
para fazer o que na vida me resta
merecer ser feito no tempo que tenho
conto com o tempo e não sei se

conto comigo e desconfio se ao fazer tal
será tão seguro como contar com os outros
que de um corpo dependo e esse tal como
muitos com que contava é cada dia mais
de desconfiar

começo a descontar-me

não é só na ria que a maré vaza

não é só na ria que a maré vaza

(torreira; marina dos pescadores)