amor longe
é de longe
que a terra se sente
mais íntima
mais nossa
não estranhes pois
este amor
que se estende por um tempo
onde não habitas
porque
foste dos que ficaram
(ria de aveiro; murtosa; bico)
meditação à beira ria
vou por onde
caminhos houver por
de água serão se
necessário for
não os temo
foi tempo de subir
e recusei
foi tempo de voar alto
dobrando-me
“vê se sobes na vida filho”
e eu
“não quero subir quero ficar ao lado”
ficou-me hirta a coluna
abertos os olhos atentos
pronta a palavra necessária
não subi
verdade se diga
mas fiz alguns
ficarem
ao nível do chão
(ria de aveiro; murtosa; bestida)
haja janelas
falo agora de um tempo cansado
curvado ao peso dos dias
o meu tempo
eu
é duro neste tempo onde o meu por dentro
olhar e ver
sentir
ser irmão do irmão
e irmão de ainda mais
solidão não é estar só
é estar mal acompanhado
falo de mim e digo
amanhã serei o mesmo
doa o que doer
a quem doer
haja janelas
(murtosa; regata do bico; 2007)
eis a questão
ser ou não ser
não é a questão
ambos são
fazer ou não fazer
essa sim
a grande questão
faz-se o homem como caminho
fazendo-se
fazendo
o silêncio que a ria respira
é uma forma de ser
o silêncio que do homem transpira
é o seu não ser
eis a questão
(ria de aveiro; torreira)
os moliceiros têm vela (17)
voa meu barco voa
há um barco menina
vogando nas águas da ria
cabelo ao vento
corpo aberto ao sal
voa meu barco voa
não deixes que te cortem as asas
és belo demais
de bica erguida
corta o tempo a direito
que mais não é que outro vento
deixa os homens não o serem
e sê tu mesmo se contra eles
da fotografia
onde andam agora os que
da terra a memória serão
de tantos olhares gravados
máquinas muitas prontas
a registar a festa da ria
o bailado dos moliceiros
voando como nunca
porque sem carga
onde andam agora as imagens
roubadas ao tempo
para nos serem ofertadas um dia?
fotografar não é
procurar a beleza e guardá-la
para concursos negócio ou
gozo próprio narcísico
fotografar é um comprometimento
com o sentir de um tempo
com as gentes que nos olharam e pensaram
amanhã vou lembrar-me de hoje
(murtosa;regata do bico; 2012)
aos meus amigos josé gomes ferreira e joaquim namorado
a ignorância povoa este tempo
mão dada com a incompetência
a arrogância dos velhos tempos
não
amigos meus de sempre
não tenho saudades do futuro
o futuro virá carregado de um passado
que nunca o foi
e isso não é futuro para ninguém
como ter saudades de tal coisa?
o passado que matam sem dó
era o presente que eu gostava de deixar
embrulhado em amor aos vindouros
cuidado por nós todos os de agora
juntos pela memória do onde fomos
morre antes mim o que queria por herança deixar
um dia dir-lhes-ão o nome e escurecerão
mas perder-se-á também a memória
do que destruíram quando foram
fraca gente esta que hoje
(murtosa; cais do bico)
a palavra e o silêncio
um homem calado
é uma estátua fúnebre
plantada numa praça
as pombas agradecem
mais um poiso
e de branco a vestem
amanhã dirão de ti
o teu silêncio de hoje
herança amarga
a tua
(ria de aveiro; torreira; s. paio, setembro, 2014)
era uma vez …… num país longe da murtosa
avô, onde nasceste?
na murtosa, meu filho
posso ver no face?
podes filho, está lá
avô, que barco é este?
qual meu filho?
o que está na página da tua terra
esse, meu filho, não sei
acho que deve ser um barco novo
no meu tempo eram os moliceiros
então não era este barco, avô?
não, filho, já te disse que não conheço
mas tu estavas lá quando apareceu este barco?
estava, filho
e deixaste que a tua terra tivesse como símbolo
um barco que não conheces?
mostra-me uma foto de um moliceiro
tão lindo!
sabes filho, nunca imaginei que um dia
tivesse um neto que me fizesse esta pergunta
olha avô agora é tarde para ti
mas se me arranjares a foto de um moliceiro
vou pô-la na minha capa
para um dia dizer aos meus filhos
que na terra do meu avô havia
o barco mais belo do mundo:
o moliceiro
avô, eu gosto muito de ti
mas ……
(ria de aveiro; regata do s. paio; setembro, 2014)
porque vai haver um amanhã