pedras haja


caminhar por aí

caminhar por aí

perdi a conta às pedras
com elas um caminho
diverso do inicial
como tudo
entre rascunho e obra
no meio à frente em torno
pedras sempre
caminhos

impossível
escolher o escolho
imprevisto

antes da vida a água
antes da água a pedra
primordial
enorme em torno do sol
sequiosa solitária a ser

perdi as pedras nas contas
desmemoriado caminho

pedras haja

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(coimbra, 2014)

crónicas da xávega (22)


no bordão, o peso da manga o ombro sustém

no bordão, o peso da manga o ombro sustém

traz no nome o início
a força de tudo poder ser
onde o mar e a areia
se encontram sem medos
numa fronteira breve
de espuma agonizante

em dias de haver mar
é ainda noite quando o arrais
e todos na praia à espera
ela mais um mais um mais
braços pernas corpo

conheço-lhe o riso
a linguagem franca das mulheres
que fazem vida do mar
a ternura com que fala dos filhos
a força com que compete com os homens
e vence o mais das vezes

cuida do dia
aurora
(torreira; companha do marco, 2014)

postais da ria (31)


POETA – ESCRITOR(A) – A PUBLICAR (desabafo)

ei-los que chegam como se não

ei-los que chegam como se não

viva oh gente que
como se aqui de repente
milagre realizado fora
onde de poeta e de louco
afinal apenas alguns

títulos como se apelidos
colados na pele
trazidos do berço
é este o tempo e o espaço
o lugar onde por fim

não se publica aqui?
o que não em papel
não publicado entendi
condenação do virtual
onde muitos mais
a custo zero
entenderão isso quando?

pequeno e médio em tudo
pasmo perante
a enormidade das pequenas coisas
das bravas gentes

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luminosamente vêm chegando

(ria de aveiro; murtosa; ribeira de pardelhas)

ah mar


braço aberto ao mar, o maria de fátima espera

braço aberto ao mar, o maria de fátima espera

sem porto nem cais
areal onde varar
procurar na memória
nas imagens retidas
um poiso um lugar

barco sem terra
condenado ao mar

resta
esperar a onda
o instante exacto
largar

ganhar o longe
ser poiso de gaivotas cansadas
sorrir à espuma

o que há para além de mar?

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(torreira; companha do marco; 2011)

postais da ria (30) – um dia falarei das pedras


ainda os cisnes voam

ainda os cisnes voam

faço-me no caminho
que faço
cúmplices efémeros
neste fazer-mo-nos

escuto o vento por
vício
abro-lhe os braços
o corpo
vou por onde

em tudo somos
o início
a recusa de ficar
ser lago

somos os dias
e os dias são imensos
porque nós neles
desencaminha-mo-los

um dia falarei das pedras

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(ria de aveiro; regata da ria, 2014)

postais da ria (29)


ti costeira, o pescador solitário

ti costeira, o pescador solitário

(para o josé luis peixoto)

como se súbito a luz
fiquei com a noção clara
de que não lerei
a tua obra completa

perder o futuro
é saber-se
e eu soube-me
nas tuas palavras

em galveias

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(torreira, 2013)

em 2014 o ti costeira já não deitou a bateira à ria

crónicas da xávega, torreira (21)


pelo mar adentro

pelo mar adentro

(para o alfredo amaral)

há um perto longe
por dentro das palavras

amigo tem
m de mar
a de alfredo
o de ondas

há uma mão estendida
um abraço
uma onda que não morre
na praia dos dias
longe do mar

dás-me o que te não posso dar
o sorriso da memória
dos dias vividos ao pé do mar

há homens assim
que não vencendo as ondas
por ficarem em terra
vencem a geografia
e se excedem de tanto

a criança fez-se homem
o jovem envelheceu
a amizade nunca aprendeu
a linguagem do tempo

hoje vieste ter comigo

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(torreira; companha do marco; 2012)

postais da ria (28)


necas lameirão e a pintura de um moliceiro

necas lameirão e a pintura de um moliceiro

(a propósito de “galveias”, o último do josé luis peixoto)

apetece-me não dizer nada
não juntar palavras
na tentativa de ao fazê-lo
dar algum sentido
a coisa nenhuma

não escrevo para
escrevo porque

estendo os braços sobre o tempo
abraço um nome
tantos nomes
um corpo
tantos corpos
a memória dos outros inscrita em mim

apetece-me não dizer nada
a leitura das grandes obras
deixa-me sempre um vazio
uma noção da pouca valia do que
por aqui vou deixando
sem pretensões
mas vou deixando

vou deixando

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(torreira, 2014)

postais da ria (27)


o fim da maré é a hora do regresso

o fim da maré é a hora do regresso

dizem-se pescadores
registam-se e resistem como tal
vêm de barco e só por isso
a ilusão se mantém

mais não foram
que lavrar a lama
colher frutos
não semeados

é parco o que na mesa fica
muitos e grandes são
os que lhes comem gorda fatia
do que por direito deles seria

vêm de longe uns
nada sabem
porém comem

de perto outros
tudo controlam
e fartam-se de tanto

há beleza que baste
para iludir o real

a ria está povoada de medos

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(ria de aveiro; torreira; cabrita de pé)

ao mar


o meu amigo agostinho

o meu amigo agostinho

( entre amigos:

 – agostinho, quando eu morrer as minhas cinzas vão para o mar, vão no maria de fátima
 – oh! cravo, nesse dia não vou ao mar. não te quero ver. )

regresso ao mar
regressarei sempre
mesmo quando
do regresso regresso não houver
e tudo não for mais que sal e água

os dias passam
de tanto passarem
passado que chegue já haverá
amores amigos ódios paixões
estórias quanto baste
no cozinhado apurado de ter sido

não esperem por mim
os que já foram
não se despeçam
os que cá ficam
vivam vivam vivam muito

o mais é não haver mar
(torreira; companha do marco; 2013)

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