quando o mar trabalha _rico


rico

dentro de mim
o menino dorme

a criança que deveria
ter sido
pouco tempo o foi
esgotou-se quando comecei a andar

correr atrás dos bois
redes barcos mulheres
o meu brincar

hoje já sou mais um
sei onde mora o pão
quanto custa ir buscá-lo

quando como
o peixe sabe-me a mar e suor
gritos e corridas
ondas e areia

dentro de mim
o homem já é

era o tempo das canastras


peixeiras da torreira (anos 70)

esperamos o peixe
canastra à cabeça
prontas partir

passo miúdo correr quilómetros

levaremos à terra
o pão do mar

os nosso gritos cantados
chamarão as gentes
abrirão portas janelas
acenderão fogareiros

por todo o lado
a mesma pergunta :

“ o mar trabalhou hoje ?”

trabalhou freguesa
é peixe do mar

e a corrida continua
até a canastra esgotar

 

quando o mar trabalha na torreira_era o tempo dos bois


joaquim salazar

com um cigarro
e os bois
reparto
o descanso breve
entre dois lanços

o mar não espera
o tempo não pára

começará o lento puxar das redes
“eh boi !, eh boi !”
seremos uma junta de três
músculos retesados
suor e baba
o mesmo esforço

depois a corrida final
chegar do saco onde o peixe
cegos correremos que tudo se pode
perder

com um cigarro
e os bois mansos
reparto
o descanso breve
entre dois lanços

(torreira)

quando o mar trabalha na torreira_marine


                                          (torreira; anos 90)
olho o peixe
salta na rede
estrebuchando na agonia do sufoco

também isto devo aprender
a linguagem da morte
não me será jamais estranha

gostaria de brincar
com aqueles peixes prateados
as minhas bonecas de menina
vivas

mas
este não é lugar de brincar

no meu rosto
a mulher que deste tamanho já sou
contempla o trabalho que a rede encerra
em que participei
com as migalhas que tinha para dar

como são grandes estes dias!
com eles cresço e fico maior
mulher do mar


(do meu livro "quando o mar trabalha")

quando o mar trabalha na torreira_henrique da bóia


(henrique da bóia; torreira; anos 90)

há quanto tempo não sonho

afinal o mar não é de vinho
e o ti borras nunca foi à américa

ficámos onde nascemos

lembro-me de
criança ainda
ajudar a minha mãe na escolha do peixe
ver no meu pai
o eu de amanhã

as dunas
eram então o meu esconderijo
agachado no seu ventre espreitava
o futuro

era o mar
que me chamava