a minha gente
fez da água terra
atravessou o mar
em busca de outras terras
a minha gente
é desta terra
mas muitos
aqui não nasceram
a minha gente
fala de amor
quando diz
sou murtoseiro
(ria de aveiro; torreira)
não digo nada
não faço nada
vou lá de quatro
em quatro anos
a vida custa
custa muito a vida
tenho de ganhar o meu
tenho de ganhar o meu
tenho de ganhar o meu
de quatro em quatro
anos vou lá
nos intervalos calo-me
sempre pode ser que me safe
a mesa é pequena mas as migalhas
tenho de ganhar o meu
( regata da ria; 2013)
“Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a razão, mesmo vencida
não deixa de ser Razão”
antónio aleixo
há muito que soltei amarras
de cais seguros
o meu andar é o meu caminho
sempre o meu
venham os que assim quiserem
deixem-me os que não
aceito dos amigos a palavra
o abraço não o silêncio
mesmo se
serei barco até um dia
o dia em que
serei mar por já não ser
até lá serei sempre eu
murtosa, novo logo do município: o tempo de pensar
primeiro momento, pensemos em termos gerais sobre o regime em que vivemos, a democracia.
em democracia, através do voto, escolhe-se quem governa, mas quem governa, não escolhe sem se manter alheio aos governados, tenham ou não votado nele. governar, hoje, é tornar-se transparente nas decisões e cumprir a lei – dar o exemplo. é impensável, nos dias de hoje, uma gestão da coisa pública longe dos olhares dos cidadãos – dos jornais, à net, ninguém escapa, muito menos os que mais visibilidade social têm.
não há, por isso mesmo, após o acto eleitoral, uma maioria silenciosa, porque ganhou, e uma minoria calada, porque perdeu. é isto a democracia. as manifestações públicas de apoio e/ou de crítica são a demonstração da vitalidade de uma sociedade democrática, os que pensam que não é assim, vão outros caminhos.
segundo momento, o como da tomada de decisão. observadas que sejam as disposições legais que balizam o acto em causa, haverá que ter em conta, aquilo. a que se chamam “as boas práticas”. ser legal não basta, convém que seja o melhor – para isso foram eleitos: para fazer o melhor dentro da legalidade.
um exemplo, muito simples, e que é aplicado nos concursos de painéis de moliceiros. com que critérios é formado o júri? quem são os seus membros? um júri que tenha na sua constituição pessoas com conhecimentos adequados a uma análise estética, por exemplo
terceiro momento, o caso concreto do novo logo do município da murtosa. volto a perguntar: todo o procedimento foi regular? houve a preocupação, tratando-se da imagem do município, de constituir um júri com competências consideradas necessárias para a sua aprovação? já foi aprovado?
quarto momento, do virtual ao real. tinha dito que já não me pronunciaria mais sobre ao assunto, mas entretanto, como não vivo na murtosa, fizeram-me chegar a foto, que anexo, da exibição do logo numa carrinha da câmara municipal. interessante seria saber desde quando? volto à acta de 20 novembro.
onde tudo se sabe, nada se pode esconder.
(ria de aveiro; regata da ria)
aos senhores da terra
de longe vem a umbilical corda
de muito longe
no dizer da terra onde vós
“não agouchais”
o tão que é
erguer-se-iam do chão as vozes
dos mais antigos
desconhecendo ser esta a terra sua
por vós marcada
se possível fosse coisa tal
ilusão vossa a de serdes mais do que
debaixo vos olham e enormes
ínfimos se de mais alto
vêde-vos tão pouco
quem disse que podieis?
(murtosa; cais do bico)
O barco moliceiro, ex-libris lagunar (continuação)
Dra Ana Maria Lopes
O espaço central dos painéis é (era) sempre acabado de preencher com arabescos ou com um motivo floral: flor, vaso geometrizado ou ramo mais ou menos esguio. À medida que se aproximam da periferia, as decorações tornam-se mais geometrizadas, terminando por três tipos de frisos estilizados. Estes conseguem-se através de uma combinação diferente de traços sobre um padrão comum, formado por círculos de dois tamanhos, desenhados sobre uma linha recta.
Dois deles lembram o roliço das conchas, o terceiro, talvez inspirado pelo movimento das águas intercalado com fragmentos de moliço, é normalmente preferido para a zona que vai dos golfiões à bica da proa, esta, sempre de cor vermelha.
Feita a homenagem aos elementos marítimos, o elemento rural não podia faltar – são as flores campestres, simples e estilizadas, repetidas ou alternadas, que servem de motivo inspirador. A ornamentação marítima, geometrizada, tem sido muito mais conservadora. A campestre, fruto de uma busca de perfeccionismo e originalidade de alguns pintores, foi evoluindo e assim acontece até aos dias de hoje.
O espaço central do painel ocupa lugar privilegiado, pois é aí que os artistas têm expressado ao longo dos tempos um vasto repertório de imagens e acontecimentos.
A decoração do barco também tem evoluído. E, de figuras simples enquadradas por contornos, o motivo passou a ocupar toda a área, tendo vindo a pormenorizar-se o cenário.
As temáticas, variadíssimas (amorosas, religiosas, patrióticas, históricas, desportivas, ecológicas, festivas, folclóricas, sociais, campestres, marítimas, heráldicas, brejeiras), não são estanques e a brejeirice é quase sempre transversal a todos os painéis. Excepto nos mais respeitadores.
A imagística do moliceiro tem acompanhado a evolução dos tempos: a presença da televisão, da mini-saia, da integração da C.E.E., do euro, o apelo à limpeza e defesa da ria, a saudade dos tempos antigos, a problemática da arte xávega, do alcoolismo na condução, a doença das vacas loucas, a crise, a austeridade, a corrupção, a tróica, concursos televisivos, comprovam-no. Inclusivamente, um ou outro acontecimento mais relevante em determinado ano permite datar a decoração do barco: a Expo 98, o V Centenário da Descoberta do Brasil (2000), os Campeonatos Europeu e Mundial de Futebol (2004 e 2006), a selecção das Sete Maravilhas do Mundo (2007) e outros
(a continuar)
(os moliceiros do mestre zé rito e do ti zé rebeço)
O barco moliceiro, ex-libris lagunar
(continuação do artigo da dra ana maria lopes)
Um dos assuntos que tem sido polémico, em que os investigadores estão longe de concordar, é a origem do moliceiro. O facto de haver semelhanças entre ele e outras embarcações bastante mais remotas não quer dizer que delas provenha. Ultimamente, em estudos que dedicou às Embarcações Lagunares que Tiveram Berço na Laguna – 2 -, o autor admite como muito sensato ter esta embarcação nascido, fruto das necessidades dos proprietários, das hábeis mãos dos nossos construtores navais lagunares, porventura, tendo reflectido uma evolução da própria bateira ílhava, ao adquirir a forma que hoje lhe conhecemos, pelos finais do século XVIII, inícios de XIX.
Os meios de propulsão do barco moliceiro são (eram) a vela, a vara ou a sirga, que os ocupantes traduzem por meio de expressões popularizadas como «andar à vela», «andar à vara» ou «andar à sirga».
A vela, de formato trapezoidal, normalmente de lona, com a superfície média de 24 metros quadrados, desliza ao longo de um mastro com cerca de 8 metros, de pinho, desmontável, suspensa de uma vara, a verga, de pinho ou de eucalipto com cerca de 4 m. Quando o barco bolina, utiliza-se a pá de borda ou toste, que faz as vezes de quilha.
O segundo meio de propulsão – a vara – era utilizado nos dias de calmaria ou em manobras junto aos cais, motas, malhadas (terrenos situados à borda d’água, com ligeira inclinação, para a descarga do moliço). A sirga, actualmente, caiu completamente em desuso.
Entre os apetrechos do barco, há a distinguir os que são fornecidos pelo estaleiro (falcas, falquins, tostes, escoadoiro e leme) e os que eram preparados pelo próprio dono: varas, ancinhos, tamancas, forcadas, lambaz, padiola, cabos, engaços, pranchas e alguns utensílios de uso doméstico.
2- Senos da Fonseca, Embarcações que Tiveram Berço na Laguna. Papiro Editora. Porto, 2011, p. 99.
(moliceiro na ria)