os moliceiros têm vela (12) – a propósito


para onde uns vão, já outros de lá regressam

para onde uns vão, já outros de lá regressam

“já vi fracassar o que era mais razoável
e triunfar o que era mais absurdo”

J. W. Goethe

entre o preto e o branco, quantos níveis de cinzento?

entre o preto e o branco, quantos níveis de cinzento?

(ria de aveiro; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (51) – sou murtoseiro


 muito dura a vida na ria

muito dura a vida na ria

a minha gente
fez da água terra

atravessou o mar
em busca de outras terras

a minha gente
é desta terra
mas muitos
aqui não nasceram

a minha gente
fala de amor
quando diz

sou murtoseiro

o olhar só vê a beleza, não vê a dor

o olhar só vê a beleza, não vê a dor

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (11) – tenho de ganhar o meu


a luta é dura para alguns

a luta é dura para alguns

não digo nada
não faço nada

vou lá de quatro
em quatro anos

a vida custa
custa muito a vida

tenho de ganhar o meu
tenho de ganhar o meu
tenho de ganhar o meu

de quatro em quatro
anos vou lá
nos intervalos calo-me
sempre pode ser que me safe
a mesa é pequena mas as migalhas

tenho de ganhar o meu

que isto não é para todos

que isto não é para todos

( regata da ria; 2013)

os moliceiros têm vela (10) – de mim


o manuel silva chega ao bico para mais uma festa do emigrante, verão 2012

o manuel silva chega ao bico para mais uma festa do emigrante, verão 2012

“Que importa perder a vida

em luta contra a traição,
se a razão, mesmo vencida
não deixa de ser Razão”

antónio aleixo

(murtosa; cais do bico; 2012)

(murtosa; cais do bico; 2012)

há muito que soltei amarras
de cais seguros
o meu andar é o meu caminho
sempre o meu

venham os que assim quiserem
deixem-me os que não
aceito dos amigos a palavra
o abraço não o silêncio
mesmo se

serei barco até um dia
o dia em que
serei mar por já não ser

até lá serei sempre eu

os moliceiros têm vela (9)


em bando na regata da ria de 2013

em bando na regata da ria de 2013

murtosa, novo logo do município: o tempo de pensar

primeiro momento, pensemos em termos gerais sobre o regime em que vivemos, a democracia.

em democracia, através do voto, escolhe-se quem governa, mas quem governa, não escolhe sem se manter alheio aos governados, tenham ou não votado nele. governar, hoje, é tornar-se transparente nas decisões e cumprir a lei – dar o exemplo. é impensável, nos dias de hoje, uma gestão da coisa pública longe dos olhares dos cidadãos – dos jornais, à net, ninguém escapa, muito menos os que mais visibilidade social têm.

não há, por isso mesmo, após o acto eleitoral, uma maioria silenciosa, porque ganhou, e uma minoria calada, porque perdeu. é isto a democracia. as manifestações públicas de apoio e/ou de crítica são a demonstração da vitalidade de uma sociedade democrática, os que pensam que não é assim, vão outros caminhos.

carrinha logo cmm

segundo momento, o como da tomada de decisão. observadas que sejam as disposições legais que balizam o acto em causa, haverá que ter em conta, aquilo. a que se chamam “as boas práticas”. ser legal não basta, convém que seja o melhor – para isso foram eleitos: para fazer o melhor dentro da legalidade.

um exemplo, muito simples, e que é aplicado nos concursos de painéis de moliceiros. com que critérios é formado o júri? quem são os seus membros?  um júri que tenha na sua constituição pessoas com conhecimentos adequados a uma análise estética, por exemplo

terceiro momento, o caso concreto do novo logo do município da murtosa. volto a perguntar: todo o procedimento foi regular? houve a preocupação, tratando-se da imagem do município, de constituir um júri com competências consideradas necessárias para a sua aprovação? já foi aprovado?

quarto momento, do virtual ao real. tinha dito que já não me pronunciaria mais sobre ao assunto, mas entretanto, como não vivo na murtosa, fizeram-me chegar a foto, que anexo, da exibição do logo numa carrinha da câmara municipal. interessante seria saber desde quando? volto à acta de 20 novembro.

onde tudo se sabe, nada se pode esconder.

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(ria de aveiro; regata da ria)

postais da ria (50) – da liberdade


a sobrevivência na ria de aveiro

a sobrevivência na ria de aveiro

ser em cada dia
as mãos por dentro
limpas de brumas

caminhar
solto de amarras
compromissos silenciosos
aspirações irreveladas

a liberdade é um grito
contra os muros
um voo puro de ave
num céu desconhecido

nada mais te digo

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(ria de aveiro; torreira; cabrita baixa)

os moliceiros têm vela (8)


a mensagem de protesto de 2012, ainda perdurava na regata de 2013

a mensagem de protesto de 2012, ainda perdurava na regata de 2013

pior que não se lembrar do passado

é não ter passado para lembrar

não matem os moliceiros

o  moliceiro "dos netos", do ti abílio carteirista, ainda com a faixa do protesto de 2012

o moliceiro “dos netos”, do ti abílio carteirista, ainda com a faixa do protesto de 2012

(ria de aveiro; regata 2013)

postais da ria (48)


a aparente calma da ria

a aparente calma da ria

aos senhores da terra

de longe vem a umbilical corda
de muito longe
no dizer da terra onde vós
“não agouchais”
o tão que é

erguer-se-iam do chão as vozes
dos mais antigos
desconhecendo ser esta a terra sua
por vós marcada
se possível fosse coisa tal

ilusão vossa a de serdes mais do que
debaixo vos olham e enormes
ínfimos se de mais alto
vêde-vos tão pouco

quem disse que podieis?

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(murtosa; cais do bico)

os moliceiros têm vela (4)


moliceiros, homens e barcos

o erguer dos mastros nos moliceiros do ti zé rebeço e do mestre zé rito

O barco moliceiro, ex-libris lagunar (continuação)

Dra Ana Maria Lopes

O espaço central dos painéis é (era) sempre acabado de preencher com arabescos ou com um motivo floral: flor, vaso geometrizado ou ramo mais ou menos esguio. À medida que se aproximam da periferia, as decorações tornam-se mais geometrizadas, terminando por três tipos de frisos estilizados. Estes conseguem-se através de uma combinação diferente de traços sobre um padrão comum, formado por círculos de dois tamanhos, desenhados sobre uma linha recta.

Dois deles lembram o roliço das conchas, o terceiro, talvez inspirado pelo movimento das águas intercalado com fragmentos de moliço, é normalmente preferido para a zona que vai dos golfiões à bica da proa, esta, sempre de cor vermelha.

Feita a homenagem aos elementos marítimos, o elemento rural não podia faltar – são as flores campestres, simples e estilizadas, repetidas ou alternadas, que servem de motivo inspirador. A ornamentação marítima, geometrizada, tem sido muito mais conservadora. A campestre, fruto de uma busca de perfeccionismo e originalidade de alguns pintores, foi evoluindo e assim acontece até aos dias de hoje.

O espaço central do painel ocupa lugar privilegiado, pois é aí que os artistas têm expressado ao longo dos tempos um vasto repertório de imagens e acontecimentos.

A decoração do barco também tem evoluído. E, de figuras simples enquadradas por contornos, o motivo passou a ocupar toda a área, tendo vindo a pormenorizar-se o cenário.

As temáticas, variadíssimas (amorosas, religiosas, patrióticas, históricas, desportivas, ecológicas, festivas, folclóricas, sociais, campestres, marítimas, heráldicas, brejeiras), não são estanques e a brejeirice é quase sempre transversal a todos os painéis. Excepto nos mais respeitadores.

A imagística do moliceiro tem acompanhado a evolução dos tempos: a presença da televisão, da mini-saia, da integração da C.E.E., do euro, o apelo à limpeza e defesa da ria, a saudade dos tempos antigos, a problemática da arte xávega, do alcoolismo na condução, a doença das vacas loucas, a crise, a austeridade, a corrupção, a tróica, concursos televisivos, comprovam-no. Inclusivamente, um ou outro acontecimento mais relevante em determinado ano permite datar a decoração do barco: a Expo 98, o V Centenário da Descoberta do Brasil (2000), os Campeonatos Europeu e Mundial de Futebol (2004 e 2006), a selecção das Sete Maravilhas do Mundo (2007) e outros

(a continuar)

(os moliceiros do mestre zé rito e do ti zé rebeço)

postais da ria (47)


ilusão ou realidade?

ilusão ou realidade?

sê a pedra

quebra o silêncio
diz o necessário
acorda o alheamento
a ignorância de
o não saber

importa pouco se
de perder for
importa muito que
fiel a ti sejas

nenhuma derrota
é vitória de outro
só tu te derrotas
só tu

sê a pedra

a luz

a luz

(ria de aveio; canal de ovar)