olho a ria e penso a urbe


a bateira do marco (fátima m.) abraçada por um velho moliceiro
gastam o tempo em estarem vivos
sem fazerem coisa outra
que isso mesmo

começam o dia quando

sentam-se nos cafés
lêm os jornais com a bica
as necrologias em destaque
depois da tensão
ou o inverso
que importa

falam do porquê de estar assim
aqui tudo onde eles também
e pelo falar se ficam que mais
já tempo foi de
agora outros que

perseguem a vida pelo puro prazer de
nada para além dela
que dela pensam saber o que fazer
nada

têm por projecto o estarem vivos
isso lhes basta
que coisa dura esta de estar por aqui

vivos ainda

 (torreira)

o voo da cabrita


na ria a ver o joão brandão e o joão dias a cabritar
tudo é muito célere
o fugaz instante em que
por aqui passo
já foi quando por ele

agarrar tudo
porque tudo é súbito
nada
entender é viver dentro
estar lá
ali onde

sei cada vez menos
o cansaço chega à raiz de mim

voo por sobre a ria
para morrer ao sol

(na ria com o joão brandão e o joão dias)

chama-se rosinha


a rosinha, bateira labrega murtoseira
conheci-a um dia na ria
é a última das primeiras
das labregas murtoseiras
das que foram mar abaixo
desaguar no tejo subindo-o

é a última na ria
na bestida
é a última do saltadoiro
pesca antiga
mais que ela
à tainha

fui nela um mais
com o mais velho
o ti manel
um dia na ria
fui história
fui

em casa miniatura
das mãos do ti henrique afonso
saída outra rosinha
a minha

a do cravo
                  (murtosa; bestida; bateira labrega murtoseira)

nota:

era certamente numa destas que o meu bisavô se estabelecia num esteiro da azambuja – o esteiro do gorim – durante a época do sável. nela fazia pão e vendia mercearias. do esteiro não consta a localização. desse tempo, recordava a minha avó: “com quatro anos corria pelos campos, com o pão para os pescadores, a fugir dos toiros”.

a memória


 

regata de moliceiros, festa do emigrante 2007

regata de moliceiros, festa do emigrante 2007

estou cansado
também eu tenho
direito a não escrever
a ficar assim sem dizer nada
fazendo de conta que digo
só para que penses
que leste

é melhor ficar por aqui
sem nada ter dito
no engano de escrever
só para que julguem
que ainda não morri

o cansaço não chega
à memória
isso vos ofereço hoje

 

(murtosa; bico; regata moliceiros, 2007

a ria e


 

um fim de tarde no chegado

um fim de tarde no chegado

eu e ninguém
uma multidão dentro de mim
sentires feitos palavras
reconstruindo silêncios
repensando tempos
esperando

eu e ninguém
somos muitos

condenados a vencer um dia
a saber esperar a aprender a não
eu e ninguém
sabemos que somos muitos
antes e depois
os bastantes para sermos um dia

eu e ninguém
somos muitos

habitamos um tempo para além do tempo
somos o tempo que se constrói dentro do tempo
condenados estamos
a vencer um dia
a vencer

 

(murtosa; chegado)

contem comigo


 

 

a cabritar no cabeço

a cabritar 

 

escritas na água
as palavras boiam nos dias
ilusão ser de terra o lugar onde
certa a incerteza

os dias não são o que
serão somente se

estendo o olhar até onde
procuro insisto e resisto
estou vivo demais
para sucumbir
arrastando desânimo pelas horas

venho de longe para longe vou
deter-me-ei tão só quando
já não for

até lá
contem comigo
de pé

 

(pesado o labor de quem da ria tira o sustento, enterrado na lama)

murmuramos muito


o salvador belo, larga a  bóia, assinalando um andar da solheira
pelos caminhos feitos
de passadeiras cobertos
os que do suor só sabem que nunca
vão para longe pela mão dos que
vão e vêm bastas vezes
vêm e vão as mesmas

e nós
nós aqui a dizer que sim
porque nada dizemos em voz alta
mas murmuramos muito
porém
deram-nos a voz para falarmos alto
dizermo-nos

no silêncio da ria
as palavras também vêm na rede
as que escrevo

as que te queria ouvir dizer
de pé
o salvador belo, larga a  bóia, assinalando um andar da solheira

(ao longe, muito perto, o meu amigo salvador belo, larga as redes da solheira)

dias de memória


 

regata de moliceiros, no bico, murtosa, 20017

 

passeio-me pelos dias
cheio de tudo e de nada
o que tenho me basta

há dias em que o cansaço
o desalento a desilusão
se somam e se tornam
maiores que o próprio dia
são os dias de memória

passeio-me por eles
como se os sobrevoasse
pesado e leve de tanto

chego e parto
fico porque

tudo começa
e acaba sem nunca

vou com as aves
escreveu o eugénio
eu quero ir com os cisnes

quero

(murtosa; bico; regata de moliceiros; 2007)

por vezes toco a beleza


de tudo me fica
a tentativa vã
de querer ir mais fundo
à raiz das coisas
onde mora a memória
a casa se iniciou

sou apenas um que tentou
mais um que

semeio palavras e imagens
sonhos e amarguras
tempo a esmo
de histórias começadas e
nunca acabadas

acabarei
a boiar algures numa laguna
de tempo sem tempo
onde não serei
sequer coisa digna de se ver

olho a ria e admiro a beleza
das pequenas coisas
reencontrando nelas o imenso
do que vou perder

será sempre assim

(murtosa; cais do chegado)

procuro viver


 

 

algures no meio da ria com o salvador rilho

algures no meio da ria com o salvador rilho

quisera
ser o que conta
memórias minhas feitas tuas
do ter acontecido
e eu

caminho por onde
caminhos faço
efémero é ser eu aqui
e tu sempre
que é teu o devir
e o que para ti deixo

sou o que anda
e nada deixa
porque não fica

eu não existo
procuro viver