a pulso se puxa a mão


a força do sexo dito “fraco”

há momentos em que as máquinas não substituem a gorça humana, na xávega este é um deles e dos mais importantes.

quando a barca “arriba” traz com ela (onde faz fixe) a “cala” “mão de barca” (corda que fecha o cerco), mal o barco encalha na areia o arrais passa-a para a companha que, em terra, a espera para a levar a força de pulso até ao alador mecânico, sem lhe dar folga ou largar; o que faria perder todo o trabalho.

é na torreira, de todas as praias de xávega que melhor conheço, que as mulheres têm um papel fundamental na arte, neste registo fica bem patente a percentagem de mulheres que dão o seu esforçado contributo ao lanço.

(torreira, companha do marco, 2011)

o calão


o calão

e o “calão” chega à praia.

calão é um pau que serve para manter a manga aberta e impedir a fuga do peixe.

segundo alguns registos (dr.ª ana maria lopes) uma das formas de distinguir o aparelho da xávega do algarve, do da costa ocidental é que nesta não havia calão. as calas (cordas) amarravam directamente às mangas.

como se pode ver pela foto nada é imutável e cá temos o calão na costa ocidental.

( da esq. para a dir. : zé caldinho, manel caldinho e ricardo pinho)

torreira, 2006, companha do arrais zé murta

o alfredo


                                                         alfredo amaral; 2010

conheci o alfredo ainda miúdo aos pés da mãe, na areia, a ver “trabalhar o mar”.

o tempo passou e hoje é um homem de força, dedicado ao trabalho e sempre com uma piada fina na ponta da língua.

quem nasce ao pé do mar e aprende a caminhar na areia, acaba sempre a trabalhar na xávega, alguns partem para o arrasto, de inverno, outros andam na ria e no mar.

o alfredo é vê-lo feliz a arrumar as cordas em cima da zorra e, enquanto o barco está no mar, a conviver com todos os camaradas de igual para igual.

quem quer vence o que tem. quem não quer morre do teve.

( torreira- companha do marco- 2010)

é carapau


o esventrar do seco

 

lentamente vai-se o saco esventrando.

o adivinhado brilho do peixe salta agora aos olhos ridentes

é carapau, é farto e de bom tamanho

a navalha corta o fio

o peixe estrebucha ainda

o sorriso espalha-se na companha

o peixe se fará pão

e o suor sentar-se-á à mesa

na partilha

( torreira_companha do marco)

xávega – o vazar do saco – abrir o saco


 

o abrir do saco

quando o saco vem cheio é uma festa, mas é uma festa de trabalho polvilhada de sal e escamas.

com este registo inicio uma série sobre o esvaziar do saco e todo o trabalho e esforço necessário espelhado nos movimentos congelados pela máquina.

o primeiro momento é o cortar da linha que fecha o saco.

(torreira_companha do marco)

saco cheio


saco cheio

é uma alegria quando depois de algumas horas o saco chega cheio à praia.

em seguida é preciso, com um estacadão atravessado sob a boca do saco ir empurrando o peixe que aí ficou emalhado para o fundo.

em seguida é cortado o fio que fecha o saco e retirado o peixe.

 

(praia de mira_companha do fatoco)

xávega – “a arte faz-se espectáculo” por francisco oneto nunes


torreira

 

francisco oneto nunes é antropólogo e  professor do iscte, começou a sua actividade de investigador em vieira de leiria, tendo publicado vários artigos e livros sobre a xávega, de que se destaca ” A arte xávega na Praia da Vieira”, com fotografia de Dora Landau. Inicia-se aí a  sua paixão pela xávega, que desaguou na sua tese de doutoramento.

Com a tese de doutoramento a aguardar publicação, coordenou ainda o livro “Culturas marítimas em Portugal”,  editado pela Âncora em 2008.

É da sua autoria o texto que a seguir se publica

 

A arte faz-se espectáculo – francisco oneto

 

muralha de bordões


 

muralha de bordões
quando em horas felizes
o peixe enche o saco
é necessário “segurá-lo”
para que as ondas não o arrastem pela areia
enquanto se espera o momento favorável
para o levar para seco
e fazer a escolha do peixe

então
um exército
armado de bordões
constrói uma muralha
e salva-se uma maré boa

(torreira; companha do marco; 2009)