quentes e ….. (2)

a escoar água da bateira
foi um homem são
que escreveu o elogio da loucura
mas só um louco
pode escrever o elogio da sanidade

a ria dentro e fora
(ria de aveiro, torreira)
quentes e ….. (2)

a escoar água da bateira
foi um homem são
que escreveu o elogio da loucura
mas só um louco
pode escrever o elogio da sanidade

a ria dentro e fora
(ria de aveiro, torreira)
quentes e ….(1)

o carregar da rede, depois de seca, na zorra
têm sobre tudo opiniões
do que se deve fazer
raramente fazem
o que os ouço dizer

a rede é a noiva dos pescador
(torreira; companha do marco; 2013)
memória das regatas

um bom bordo
são muitos os que querem
vão armados com o melhor
trazem tudo e muito mais
não dão nada
têm medo de se perder

a arte de velejar um moliceiro
(torreira; regata do s. paio; 2013)
umbiguices

a espera, o espelho, calma ria, calmaria
tenho do umbigo a noção
exacta da sua função
foi por ele que me alimentei
no ventre de minha mãe
nada mais
agora aí está melhor ou pior
desenhado na barriga
sem quaisquer funções
não perco por isso tempo
em contemplá-lo
a olhar para o umbigo
muito boa gente anda
no dizer afiado e simples
da sabedoria popular
sentam-se na sua vidinha
sabem todos os nomes
que abrem portas e janelas
não incomodam para
não serem incomodados
como eu os entendo
umbigo só há um
e agora a mãe é outra

toda a beleza é pouca aqui
(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio, 2012)
as mortes da vida

a teresa, a cacilda e a olívia (falecida)
os dias são imensos
plenos de areia e mar
sal suor mãos peixe
como se penas as escamas
fazem delas aves
poisadas na beira mar
debicando peixes
são as mulheres da torreira
que à torreira do sol
ganham o quinhão de pão
chamo-as pelo nome
e a olívia
responde-me da memória
a vida está cheia de mortes

a teresa, a cacilda e a olívia (falecida)
(torreira; companha do marco; 2012)
algemas

alar da solheira
lembro-me de tudo
o que não quero
carrego comigo
memórias teimosas

silêncio, quero ouvir a ria
(torreira; alar da solheira)
saber o mar

como se cavalo fora
tratam o mar por tu
insultam-no abraçam-no
sabem-no e sabem
que mar que é mar
é não ser sabido
poderão ser os últimos
mas serão sempre
os primeiros

pancada de mar
(torreira; companha do marco; 2012)
palavras para mim

as palavras necessárias
livros eram três de histórias
para uma menina que nesse dia
seis anos breves fazia
a minha neta mais nova
a rosarinho
junto um postal em forma de flor
e palavras do avô
ao telefone
o livro de que gostei mais foi o da flor
porquê
quis saber
tinha palavras para mim

há palavras à espera
(ria de aveiro; torreira)

o meu amigo do mar, para os meus amigos da terra
ontem em coimbra
tarde de sol aberto, temperatura amena, sábado, dezembro.
ontem em coimbra
o adelino castro e a carla, da lápis de memórias, abriram as portas a um amigo, para a apresentação de um livro de que não eram editores, deram o que tinham. num sábado à tarde, de sol aberto, em dezembro, com a temperatura amena
ontem em coimbra
o diamantino e a ção vieram de aveiro, o diamantino fez a apresentação do livro, com uma palestra caminhando pelos trilhos do livro e do autor. num sábado à tarde, em dezembro, pleno de sol e temperatura amena.
ontem em coimbra
a teresa namorado, veio da figueira, o manuel marques embora achacado, veio e despediu-se que em casa era preciso, a mariana alface, o fernando (com o beijo da lena também), o antónio vilhena, a isabel faria, a conceição ruivo; estiveram numa cave, com luz artificial, num dia pleno de sol, num sábado de dezembro, à tarde.
ontem em coimbra
foi bom saber que amigos tenho que trocaram o sol de dezembro, num sábado à tarde para estarem comigo na apresentação de “sou tudo o que aqui encontras”. foi bom encontrá-los porque eu também sou eles.
obrigado por serem

o meu amigo agostinho trabalhito, pescador da torreira e de portugal
continuar

“andar à vara”
o que resta de mim
é o haver ainda
uma flor por nascer
outras que pouco vejo
mas sinto minhas
abro os olhos cansado
cada dia mais seco
agarro-me às raízes
enterradas fundo no mar
ao moliço da ria antiga
vara espetada no lodo dos dias
empurrando um casco velho
abro os olhos cansado
cada dia mais seco
reinvento-me para continuar

tanta arte quanto à vela
(torreira; regata do s. paio; 2010)