da insónia

raiva de não escrever
de olhos fechados
as palavras que me assaltam
noite dentro e fogem
sem deixar mais
que a lembrança
de terem sido
tudo parecia tão claro

(torreira; o alar da solheira)
da insónia

raiva de não escrever
de olhos fechados
as palavras que me assaltam
noite dentro e fogem
sem deixar mais
que a lembrança
de terem sido
tudo parecia tão claro

(torreira; o alar da solheira)
até um dia

o stalone agarra o calão e o ti américo desata o nó que prende a corda do arinque do reçoeiro
maiores que o mar
efémeros como a espuma
enterram na areia
os pés
espero os dias de sol
encharcados de sal
para os reencontrar
um dia

(torreira; companha do marco; 2012)
sem quaisquer pretensões fílmicas, apenas documentais, procurei registar os diferentes momentos de um lanço de xávega: largar, arribar e aparelhar.
o registo foi feito na praia da torreira, no dia 30 de agosto de 2015, com a companha do arrais marco silva e no barco de mar de mar “maria de fátima”
procedimentos no mar:
– largar o reçoeiro
– largar o arinque do calão do reçoeiro
– largar a manga do reçoeiro
– largar o saco e a calima ou calime
– largar a manga da mão de barca
– largar o arinque do calão da mão de barca
– largar a mão de barca
no arribar notar o modo como o arrais enrola cala da mão de barca na bica da ré, para segurar o barco enquanto espera a onda, ou as ondas, que o hão-de levar a terra “surfando”.
procedimentos no aparelhar:
– a rede fica entre o paral (antepara) do motor e o primeiro traste (traste da ré)
– a cala do reçoeiro fica por cima da rede
– a cala da mão de barca fica debaixo do paneiro da proa até ao traste da proa
– o saco dá a volta ao barco pela ré e assenta no paneiro da proa
sequência:
– manga da mão de barca
– saco
– manga do reçoeiro
– cala do reçoeiro
em paralelo: cala da mão de barca
cada camarada sabe qual a tarefa que lhe cabe em cada um destes momentos e todos funcionam como uma companha.
sem tempo

no meu é que era
tudo tem o seu
foi mesmo a
falta-me sempre
não sei se chega a
já não era sem
veio fora de
tanto sem te ver
estou a matar o
acabou-se o

(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2012)
contar porquê

quantos anos? não os contei (o carregar das redes para secarem ao sol)
começa um ano
continua o tempo
por sobre a areia
nem pegadas
que o vento
das gentes pó
a areia o mar
a memória
fica o retrato a falar
do que perdi a conta
tempo houve em que
era assim
ainda é ainda é ainda
não conto nada
registo o que posso
(torreira; século XX)
eu só só eu

foram-se os dias
foram-se amigos
laços afectos
pedaços de mim
semeados
arrancados
fui-me sendo por aí
mais um mais um
menos que nada
menos que eu
menos
eu só
só eu

(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)
o mar e eu

o ti américo e o massa, ao fundo
olho o mar e penso
aqueles que te não conhecem
se te soubessem
fico assim dentro de mim
a inventar ondas gaivotas
um barco e os meus amigos
o mar é uma casa imensa

homens de mar
(torreira; companha do marco; 2011)
quentes e …. (4)

modernidade e tradição, a convivência
comprei um papagaio
veio com um poleiro
e comida bastante
pu-lo na varanda
é o dono da terra

se quisermos é um cenário sempre possível
(torreira; regata da ria; 2010)
ao pescador da torreira

reparar as redes da solheira
far-te-ás no tempo
desfazendo o que de ti
fizeram
afirmar-te-ás negando
que todo o fim
é negação de início
seres tu é tarefa
em que não podes estar só
a companhia surgirá quando
de velhas companhias livre fores
és mestre do incerto
senhor do saber esperar
por isso te digo
não
não tens o que mereces
nem ninguém te oferecerá
o teu futuro

as horas que fazem o dia são poucas
(torreira, porto de abrigo dos pescadores)
prefiro a carne ao peixe

a compnha espera
aqui longe sei que
é esta a gente que se ajoelha
perante um deus invisível
e não se curva diante do mar
a névoa cobriu tudo e adivinhar
o mar não é arte é loucura
nestes momentos oiço-os dizer
prefiro a carne ao peixe

como se inverno em agosto
(torreira; companha do marco; 2014)