postais da ria (94)


quero-te barco

olhar é viver

olhar é viver

que vejas para além
da ilusão

que sejas não a gota
sequer a teia
mas um barco
onde navegar seja seguro
não por instantes
mas sempre

que te não iludas
com falsas pérolas de água
presas em malha fina
tecida por habilidosos
fabricantes de armadilhas

de teias se tecem vidinhas
videirinhas no amarinhar
dias acima gente abaixo

quero-te barco
mesmo se antevisto
onde navegar seja seguro

não fiques preso na teia, sabe porém vê-la

não fiques preso na teia, sabe porém vê-la

(torreira; 29/08/2015)

postais da ria (93)


é indizível o que sinto

entre a palavra e a imagem o sentir

entre a palavra e a imagem o sentir

falar de ti é ainda dizer-me
continuar a ser
pelas tuas mãos ainda por

deixar-te a memória do tempo
a beleza dos dias onde fui
é dar-me-te para me seres mais

é indizível o que sinto

tudo o que te possa dar é pouco, o pouco que conquistares é muito

tudo o que te possa dar é pouco, o pouco que conquistares é muito

(ria de aveiro; torreira)

crónicas da xávega (87)


a corda e a mão

os olhos mais além

os olhos mais além

a mão na corda
ou a corda na mão?

o que diz a mão da corda?
e a corda da mão?

quando uma?
quando a outra?

tudo tem o seu momento
isso te digo
sê ambas e serás

o ti horácio encaminha a mão de barca no arribar

o ti horácio encaminha a mão de barca no arribar

(torreira; companha do marco; 2015)

postais da ria (91)


calaste-me pedras

fica a sombra

fica a sombra

não mates a palavra
para continuares vivo
deixa que seja o tempo
a levar-te inteiro

quero-te dizer que dói
assistir à tua morte
sabendo-te vivo

as hienas comem o leão
a noite chega mais cedo
é de restos que se atapetam
os dias que me restam

as pedras esboroam-se
tropeço em montículos de areia
desfeita que foi a memória

calaste-me pedras

é urgente dourar os dias que restam

é urgente dourar os dias que restam

(torreira; marina dos pescadores)

os moliceiros têm vela (135)


para o meu amigo dr. peres

o silêncio cobre tudo, espera-se

o silêncio cobre tudo, espera-se

não sei onde está agora
aquilo que do teu corpo
em cinzas tornado foi

recordo as tuas palavras
“então e o meu amigo como vai?”
e eu ia com a tua ajuda

a música a poesia a pintura
um mundo onde habitar
era ter um amigo dentro

cuidavas mais dos outros
que de ti
talvez por isso te descuidaste
e já não és

escrevo só para te dizer
obrigado
obrigado por teres sido

um quadro para a parede do dr. peres

um quadro para a parede do dr. peres

(torreira; regata do s. paio; 2010)

lembro-me agora, meu amigo, que nunca chegámos a comer, juntos, uma caldeirada de enguias