o mar de longe
escrevo-me perdido na cidade
afogado em betão
morrendo os dias descontados
oiço o mar em mim
(torreira; companha do marco; 2013)
palavras de mim
não me custa ser como sou
no entender do direito do outro
a ser diferente de mim e aceitá-lo
como coisa natural de sermos muitos
diversos e comunicantes por natureza
não me custa ser como sou
não sei de outro modo de ser
nem me imagino a sê-lo
sou eu sessenta e três anos depois
não sei quantos antes
o incomodado que incomoda
o caminho aproxima-se do fim
por força das leis que me trouxeram aqui
nada peço nada me peçam senão
o continuar a ser esta coisa de carne e osso
com muitas ganas de fazer de olhos abertos
e uma noção de justiça difícil de calar
vou por meus pés até onde puder
contra a maré se necessário
mas quem diz que maré cheia não é
vazia de sentido?
(torreira; regata do s. paio; 2012)
de nós
houve os que partiram
e a quem chamaram heróis
nem todos regressaram
outros houve que ficaram
não por não serem heróis
mas por amor à terra
de uns e de outros vimos
que dois povos diferentes são
diversos no estar e no ser
uns serão do aceitar
outros do questionar
(torreira; companha do marco; 2013)
retrato de uma primavera

contam com a memória
não a lembrança incómoda
mas o esquecimento de
são os senhores da guerra
e os fazedores da paz
depois de a terem deflagrado
facturam sempre e com tudo
vendem o sangue
que fizeram derramar e é negro
foram eles que inventaram
o espectáculo
que hoje denunciam bárbaro
moram sempre longe
estão sempre perto
e acreditam em deus
que não lhes perdoará
(torreira; regata do s. paio; 2012)