os moliceiros têm vela (95)


gorim

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escrevo gorim
e sou mais do que eu

são pescadores da xávega
e da ria onde companha tiveram
na azambuja um esteiro
houve com o seu nome
murtoseiros sempre
até nas partidas sem regresso

escrevo gorim
com m de murtosa
termino assim

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(torreira; regata do s. paio; 2010)

os moliceiros têm vela (93)


retrato com moliceiros

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de grande tem a terra
o cemitério a saudade
o silêncio

as casas vazias muitas
para retornos breves
a ausência

há moliceiros a vogar na ria
nunca o longe foi tão perto

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(torreira; regata do s. paio; 2014)

os moliceiros têm vela (92)


dos espectadores

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o poeta sentou-se
não era ainda o tempo das palavras
mas o de olhar e sentir

o tempo passou
e o poeta sentado mudo e quedo
espreitando o mundo

passaram as palavras
passou o poeta
ficou apenas o tempo

condenação de espectador
é ser nada
quando pensou ser tudo
até poeta

ahcravo_DSC_4213torreira; regata do s. paio; 2012)

postais da ria (79)


desconto-me

maré vazia na ria

maré vazia na ria

conto comigo e poucos mais
desconto muitos com que contava
por ter contado mal ao contá-los

conto ainda com o suficiente
para fazer o que na vida me resta
merecer ser feito no tempo que tenho
conto com o tempo e não sei se

conto comigo e desconfio se ao fazer tal
será tão seguro como contar com os outros
que de um corpo dependo e esse tal como
muitos com que contava é cada dia mais
de desconfiar

começo a descontar-me

não é só na ria que a maré vaza

não é só na ria que a maré vaza

(torreira; marina dos pescadores)

os moliceiros têm vela (91)


o insuportável peso da luz

assim vejo

assim vejo

o que nos separa é o essencial
isso só se torna evidente se
sobre o branco inscrevermos
o traço exacto das fronteiras
onde os desejos se dividem

fundamental reduzir o acessório
à sua verdadeira dimensão
dispensável

a luz tudo atravessa para se
fazer dia

assim te iludo

assim te iludo

(torreira; regata do s.paio; 2010)

crónicas da xávega (58)


crescer para o mar

o arrais marco, homem dos sete ofícios

o arrais marco, homem dos sete ofícios

ajoelha-se o homem para o trabalho
minucioso do tecer das malhas

arte secular aprendida no areal
onde por vezes o pão chega prateado
espalhando sorrisos e esperança
que nem sempre a lota contempla

ajoelha-se o homem e pede ao senhor
pão que baste para tão sofrido suor

erguer-se-á o homem e crescerá
para o mar

o arrais marco silva

o arrais marco silva

(torreira; companha do marco; 2013)

postais da ria (78)


sonhei um dia ser ave

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vieram depois os que sabiam
das palavras exactas
dos nomes das coisas e falaram
ensinaram-me a ver
as cores e o por dentro delas

escutei-os no recato da margem

vi como as aves
reescreviam com as asas
na superfície das águas
a palavra voo

sonhei um dia ser ave

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(ria de aveiro; torreira)