quem somos nós?


 

 

o maria de fátima

o maria de fátima

quem somos nós?
que tão pouco contamos
a não ser para as contas dos que
contos nos contam de encantar
quem somos nós?

que gente é esta que ganha ao mar
para perder em terra?

flores no peito vermelhas em abril
secam o ano inteiro em jarras
de fato e gravata
decorando salas onde se passeiam
camaleónicos figurantes

quem somos nós
que deixamos de ser
para sermos o que querem?

vencer o mar
não é vencer na vida

 

(torreira; companha do marco)

continuo eu


 

como escreveu o poeta "ei-los que partem"

como escreveu o poeta “ei-los que partem”

que mais me resta senão
inventar
dia a dia o dia em que
pinto tudo de novo
como se casa minha
habitada por

e vou por aí
com os sonhos no peito
emprestando a ilusão
de que tudo é belo
e a serenidade algo tão natural
como o seu inventar

aquietadas as angústias
abro os braços
e abraço o vazio

continuo eu

 

(ria de aveiro; torreira)

aparelhar


 

os braços encaminham a manga

os braços encaminham a manga

 

na zorra as mangas e o saco secos, estão prontos para serem de novo carregados no barco e ao mar retornar.

o lanço começa agora, no aparelhar (dispor redes e cordas no bojo do barco).

“quem vai ao mar avia-se em terra”

os homens que vão ao mar, são os que sabem do aparelhar, na areia carreiam as redes, para os que dentro do barco as acomodam como manda a arte.

braços e mãos são caminhos.

 

(torreira; companha do marco; 2011)

contem comigo


 

 

a cabritar no cabeço

a cabritar 

 

escritas na água
as palavras boiam nos dias
ilusão ser de terra o lugar onde
certa a incerteza

os dias não são o que
serão somente se

estendo o olhar até onde
procuro insisto e resisto
estou vivo demais
para sucumbir
arrastando desânimo pelas horas

venho de longe para longe vou
deter-me-ei tão só quando
já não for

até lá
contem comigo
de pé

 

(pesado o labor de quem da ria tira o sustento, enterrado na lama)

as novas muletas


 

o maria de fátima vai fermoso e seguro

o maria de fátima vai fermoso e seguro

 

o barco entra agora no mar, apoiado numa estrutura rígida, as 2 muletas fixas nas cápsulas metálicas, e deixou de ser necessária a regeira.

note-se que, pela mão do arrais, começa a sair o reçoeiro e, ao fundo, a rebentação no “cabeço” – praia, lago, cabeço.

 

(torreira; companha do marco; 2011)

do hoje


 

 

torreira, havia bois no mar

torreira, havia bois no mar

faz-se a memória
do ser e do sentir
do estar e do ter estado
do querer e do saber
todo o dia será memória
se memória do dia se fizer

és o que foste
serás o que és
em ti nada começa
e nada acaba
és apenas tu

nunca apenas foi tanto

contamos contigo
para continuarmos a ser
mais que memória lembrada
a vivida sentida sabida

vida
(torreira, no tempo dos bois, a memória aqui)

murmuramos muito


o salvador belo, larga a  bóia, assinalando um andar da solheira
pelos caminhos feitos
de passadeiras cobertos
os que do suor só sabem que nunca
vão para longe pela mão dos que
vão e vêm bastas vezes
vêm e vão as mesmas

e nós
nós aqui a dizer que sim
porque nada dizemos em voz alta
mas murmuramos muito
porém
deram-nos a voz para falarmos alto
dizermo-nos

no silêncio da ria
as palavras também vêm na rede
as que escrevo

as que te queria ouvir dizer
de pé
o salvador belo, larga a  bóia, assinalando um andar da solheira

(ao longe, muito perto, o meu amigo salvador belo, larga as redes da solheira)