um homem só?


 

popola

 

um barco
o silêncio da praia
deitado na areia
escuta o suave
navegar das nuvens

um homem só
espera
não se sabe se amanhã
hoje
será o dia
o ultimo
o primeiro

um homem só
abandonado no seu país
pelos que nele mandam
e mandaram
dizendo representá-lo
e mandam
ainda mais

não é
um homem só
ou será?

todos somos
o homem só
ou negar-nos-emos
como povo

(torreira, 2008; à memória do arrais zé murta)

o nosso mar


(torreira; 2007)

cumpriram-se os dias
plenos de sal
séculos escritos sobre as ondas
um povo à beira mar
se fez e aí cresceu

aqui todo o destino tem sabor a espuma
escamas recobrem os homens
mulheres outras estas
as que o mar fez
 
restam poucos
restam muitos
restam os que são e sabem ser
pescadores
apanhados
nas malhas de uma europa
que não a sua
 
afogar-se-ão
ou não?

quem se faz ao mar e o vence
será que vai morrer a ver o mar crescer
sem o poder galgar?
 
falo de homens
não de burocratas
falo do nosso mar

quem vence o mar vence sempre

as medidas do tempo


(torreira; 2011; o descanso da guerreira)

contas o tempo
em máquinas
e outros artefactos

acaso pensaste
no tempo de ser?

quantas horas
tem um minuto de dor?
quantos meses
um dia de fome?
quantos anos
um sorriso de uma criança?

quantos séculos
se inscrevem
nos rostos crestados
pela terra e o sal?

são de gente
os ponteiros
do meu relógio

diverso tempo
este
onde a morte
espreita

até quando?


(praia de mira; 2009)

que dizer-vos
destes tempos em que assisto
a tentativas sucessivas
de assassinato
da memória?

que dizer-vos
da raiva angústia
desespero
destas gentes
que são as as minhas
que são as nossas
que somos nós?

quem seremos
amanhã
se nos querem roubar
o hoje
o ontem?
 
quem seremos
amanhã
se nos querem roubar
o sermos?
 
o povo será sereno
mas até a serenidade
tem limites

até quando?

reunião de mira no jornal de notícias


barco de mar é notícia no jornal de notícias

Jornal de notícias (17/7/2012)

Pescadores revoltados com

perseguição dos fiscais”

MIRA

Arte xávega critica intransigência das autoridades no cumprimento da lei comunitária

FURIOSOS, indignados e à beira de um ataque de nervos. assim que estão os pescadores das 22 companhas da arte xávega, entre Espinho e Leiria, que ontem encheram por completo o salão nobre da Câmara de Mira, numa reunião promovida pela autarquia local, com o objetivo de ouvir os protestos de quem tem sido “vítima” de uma “apertada fiscalização” e obrigado a devolver ao mar milhares de carapaus imaturos (com menos de 12 centímetros de comprimento).

A ar te xávega é cega. Quando os pescadores lançam as redes – todas elas legais e sistematicamente alvo de fiscalização – ao mar, não sabem o que vão pescar. E quando o peixe chega a terra, já vem morto. Não dá para devolver à água. Fazê-lo, como impõe a Lei, é prejudicial para todos. Desde logo para o meio ambiente”, afirmou, durante a reunião, o vereador Miguel Grego, lembrando que “a praia de Mira, onde trabalham um terço das companhas de xávega do país, é a única em todo o mundo com bandeira azul há 26 anos consecutivos”. Por isso, sublinha o autarca socialista, “não podemos andar a atirar peixe morto para o areal”. Mais do que contestar as regras comunitárias sobre o tamanho do carapau , os pescadores criticam duramente a “intransigência das autoridades fiscalizadoras”.

José Vieira, dono de uma embarcação, defende “quotas para cada companha”.

João Reigota, presidente da Câmara de Mira, prometeu convocar uma reunião com todos os partidos com assento na Assembleia da República, a quem vai pedir ajuda.

Miguel Gonçalves

miguelgoncalves@jn.pt

querem matar a xávega


barco de mar da xávega

Ontem, dia 16 de Julho, pelas 16 horas decorreu na Câmara Municipal de Mira uma reunião do executivo camarário com patrões e arrais de xávega, da costa portuguesa, que debateu as novas regras aplicar ao tamanho (do carapau) e quotas de pescado (sarda), e a forma como podem afectar a sobrevivência desta arte de pesca artesanal e centenária na nossa costa.

A xávega tal como é praticada na costa ocidental portuguesa é única no mundo e pode estar definitivamente condenada ao desaparecimento, caso lhe sejam aplicadas as regras anunciadas.

O responsável pela convocação da reunião foi o patrão e arrais José Vieira da Praia de Mira.

A reunião apoiada e patrocinada pela Câmara Municipal de Mira, foi presidida pelo Presidente da autarquia, Dr. João Reigota, ladeado por dois vereadores do executivo municipal, nomeadamente pelo Dr. Luís Grego que representa a autarquia no sector das pescas.

O tema que preocupava todos os pescadores, arrais, patrões e vendedores presentes, foi provocado pela intenção de ser levada à prática, ainda este ano a exigência de que 90% do carapau pescado pelas companhas, tenha a medida mínima de 15 cm – a medida actual é de 12 cm.

Estiveram presentes todas as praias onde a xávega ainda se pratica:

Paramos: 1 (companha)

Espinho : 1 (companha)

Vagueira: 1 (companha do filho do João da Murtosa)

Furadouro: 1 (companha)

Torrão do Lameiro : 1 (companha)

Torreira: 2 (companhas)

Praia de Mira: 6 (companhas)

Vieira de Leiria: 2 (companhas)

Pedrógão: 2 (companhas)

Perfazendo 18 companhas.

Considerando que o número de companhas, estimado em conversa com os pescadores presentes, a trabalhar na costa é de 22, as presenças foram em número muito significativo.

Se as medidas anunciadas e constantes de diplomas legais, forem aplicadas, a pesca artesanal de xávega desaparece da costa ocidental portuguesa, onde se constituiu como património cultural ao longo de séculos e da qual dependem, directamente, mais de 400 famílas e indirectamente muitas mais, que vivem da atracção turística que esta arte atrai.

Os presentes aproveitaram para relatar experiências vividas no seu dia a dia de pescadores e vendedores, e que são completamente aberrantes. Vejamos alguns exemplos:

– As redes têm a malhagem legal e os barcos estão devidamente licenciados, pelo que operam dentro de todas as normas exigidas legalmente, contrariamente ao que por vezes se pretende transmitir à opinião pública.

– A pesca artesanal é cega, assenta na experiência do arrais, mas não escolhe o peixe que vai ser capturado, é o que vier na rede. O que não acontece com os barcos de pesca industrial equipados com aparelhos que lhes permitem detectar os cardumes e o tipo de peixe. Na xávega a frase mais ouvida quando o barco vai ao mar é : “ O arrais tem fé neste lanço”.

– O peixe uma vez chegado à praia, mesmo se ainda com vida, é peixe que não sobrevive se lançado de novo ao mar. É peixe morto para todos os efeitos. No entanto, se não tiver a medida, não pode ser vendido, não pode ser enterrado na areia e se for lançado ao mar como as autoridades marítimas exigem, vai poluir as praias a sul, para onde o peixe morto é arrastado pela corrente dominate de norte, poluindo-as e pondo em causa muitas bandeiras azuis.

– Mas o que é um peixe sem medida? Trata-se do apreciadíssimo “jaquinzinho” ou “pelim” – que já regalou algum secretário de estado. Ora é tradição entre os arrais que se o primeiro lanço der só peixe miúdo, não se faz mais nenhum durante a manhã, só voltando a fazer-se novo lanço à tarde. Se o pescado se mantiver pára-se a pesca.

– O interessante é que este peixe pode ser adquirido nos hipermercados, devidamente embalado, oriundo da vizinha Espanha e com a denominação de peixe do “Mediterrâneo”, onde é consumido abertamente em restaurantes.

– Para cúmulo o carapau de 15 cm de comprimento, capturado pelas traineiras no outono, não é utilizado para consumo, mas sim para a transformação em farinha.

– Num país onde há quem passa fome, deitar peixe ao mar é crime. Foi por isso proposto que o peixe sem medida, pescado nos primeiros lanços pudesse ser vendido e repartido com instituições de solidariedade social, ou famílias carenciadas. Esta proposta não foi questionada pelos presentes.

Os presentes delegaram no executivo da Câmara de Mira a sua representação junto das entidades competentes, nomeadamente nas Autoridades de Controle Pesqueiro, tendo sido informados que já estava agendada reunião entre representantes do executivo e os responsáveis da área da Figueira da Foz.

Comprometeram-se ainda os representantes da autarquia em convidar deputados dos círculos de Coimbra, Leiria e Aveiro – círculos eleitoriais das zonas onde a xávega ainda se pratica – para uma reunião com os presentes, onde se debateria a situação vivida pelas companhas, caso seja levado à vante o pretendido.

Parece que tudo se está a conjugar para que esta arte de pesca artesanais desapareça e, repito, com ela seja posta em causa a sobrevivência de muitas famílias e seja liquidado mais uma importante património histórico, único em todo o mundo, servindo sempre os interesses de países terceiros e dos grandes industriais de pesca.

Que fique bem claro: as companhas de xávega cumprem em todos os aspectos – aparelho (redes e melhagem) e barco – toda a legislação em vigor. Operam legalmente na costa e não desenvolvem, por isso mesmo, quaisquer actividades clandestinas ou ilegais.

É a própria natureza da arte e o seu modo artesanal de proceder que indirectamente é posto em causa por legislação e legisladores que desconhecem, mais uma vez, a realidade . . . . . . . ou talvez não.

alfredo amaral


"sou feio mas sou moderno"
alfredo amaral
aqui te digo amigo
que me orgulho de te ter como
saber a tua história
o que foste  o que és
de pequenino aos pés da tua mãe
a ver trabalhar o mar
agora já homem
a dar duro no pão

o mar que ela agora não vê
a tua mãe alfredo
a ana
é agora tua filha
onde o mar é teu irmão
e pai

saber como és mais que tu
sabendo-te
sorrindo
jamais exigindo
quem conhecendo-te
te poderá dizer não?

que todos os filhos
sejam como tu
sem serem como tu
é desejo que fica
é palavra que deixo
é desejo

abraço-te
e sorrio
porque tu és feio
mas és moderno

quando há tantos modernos
horrorosos

(torreira; 2011)