crónicas da xávega (99)


nota dos dias que correm

o agostinho desata o arinque do calão

o agostinho desata o arinque do calão

ontem morreram quatro pescadores num arrastão à entrada da barra da figueira. problemas de concepção da barra.

ontem um locutor de televisão tentou assassinar o bom nome de um cidadão. problemas de concepção do mundo.

hoje não sei que país é este onde tudo isto pode acontecer e ficar impune.

a realidade tem muitas cores e todas são belas

a realidade tem muitas cores e todas são belas

(torreira; companha do marco; 2014)

crónicas da xávega (98)


de como não devia ser

as dificuldades do arribar

as dificuldades do arribar

não sei se te sabes
se sou eu que te não sei
mas é nestes desencontros
que o presente morre
e se assassina o futuro

não me comovem as lágrimas
que não nascem das mãos
escrevo-te pregos e arame
instrumentos cortantes
ferramentas tuas de sangue fazer

o meu tempo é hoje
o teu também o será
mas são dias tão diferentes

a arte está em emendar a mão

a arte está em emendar a mão

(arribar; torreira; companha do marco; 2015)

crónicas da xávega (97)


as mãos do meu país

mãos sofridas

mãos sofridas

as mãos do meu país
sangram o pão que comem
andam descaídas desempregadas
cansadas depois de tanto e agora

as mãos do meu país
falam pouco ouvem muito calam
há quem queira matar a memória
das mãos do meu país

as mãos do meu país
no domingo vão sair à rua
quero ouvi-las a dizer o que querem

as mãos do meu país

mãos

mãos

(torreira; companha do marco; 2015)

crónicas da xávega (96)


escorro água e sal

o vento é de sul e levanta mar

o vento é de sul e levanta mar

desfaz-se a pedra em água
corre por entre os dedos areia
as paredes tremem e é de vento
o telhado onde antes casa

digo-te que não mereço
como não merecem aqueles
a quem nada resta senão
o serem como são por não
poderem ser de outro modo

voltaremos um dia e será manhã
até lá esperamos que o sol
se ponha devagar
e seja noite quando for

escrevo-te do exílio de mim
da memória de um tempo outro
que já não existe nem voltará

ao passado o que dele é
o futuro dir-se-á no tempo certo

o vento é de sul
o mar entrou no barco
escorro água e sal

eu fui ao mar

eu fui ao mar e o mar veio ter comigo

(torreira; companha do marco; 2015)

crónicas da xávega (95)


a mão de barca ao alador

o ricardo, a cacilda, o sílvio e no final o quim

o ricardo, a cacilda, o sílvio e no final o quim

quando o barco de mar arriba, traz com ele a “cala” – corda – chamada “mão de barca”, com a qual o fecho da xávega se fecha em terra.

o levar da extremidade da “mão de barca” até ao alador, tem de ser feito a força de braços, é um momento delicado porque a corda tem de se manter tensa e o esforço é enorme.

todos os que podem são necessários para este momento.

todos em esforço até ao alador

todos em esforço até ao alador

(torreira; companha do marco; 2014)

crónicas da xávega (94)


fico com os barcos

como se ave fora e voasse

como se ave fora e voasse

quando a faca corta a água
o sangue é incolor
como se o mar chorasse

despeço-me de ti
porque já não és
e eu que fui contigo
sou agora outro

fico com os barcos
reaprendo a navegar

navegar é preciso....

navegar é preciso….

(torreira; barco de mar maria de fátima; 2015)

crónicas da xávega (92)


o meu tempo é este

o chegar do saco

o chegar do saco

ficar destes dias a memória
onde rostos gestos sentires
os nomes os amigos
o ter sido aqui tanto

difuso o nevoeiro
começa a cobrir tudo
em breve quase nada
restará

o meu tempo é este

o chegar do saco

o chegar do saco

(torreira; companha do marco; 2013)

crónicas da xávega (91)


a estreia do ricardo silva

o arrais marco silva, o agostinho, o ricardo e o horácio

o arrais marco silva, o agostinho, o ricardo e o horácio

ontem fui pela última vez ao mar este ano. o mar estava manso por isso fui, nada de armar em campeão, nem de pôr em causa a atenção que o arrais tem de ter ao fazer do lanço. vou mas não existo como preocupação.

se para mim foi a última ida do ano, para o ricardo foi a primeira vez que o pai o deixou “ir ao motor” num lanço de xávega. a responsabilidade é grande, o sentir o motor nas mãos e o barco a seu mando, só quem alguma vez andou, pelo menos, dentro de um barco de mar pode sentir o que representa.

o mar estava manso, repito, o coração do ricardo pequenino, os olhos atentos ao mar, sempre a mirar o longe, enquanto o pai, o horácio e o agostinho lhe iam dizendo como fazer.

foi bom ver como todos se uniram em volta do ricardo, para que tudo corresse bem. e correu. foi um lanço de peixe e de fazer um puto sentir-se ainda mais homem….. e de um homem sorrir como um puto.

abraço ricardo, foi bom estar com todos no barco onde tu, pela primeira vez, te sentiste arrais.

quem sabe, para o ano eu volto

ao vivo e a cores

ao vivo e a cores

(torreira; companha do marco; 2015)