crónicas da xávega (123)


da raiva

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podem os homens
vencer o mar
ser o barco a casa

pode o mar calar
os homens
ouvir as mulheres

pode esta raiva
que trago no peito
salgar-me os olhos
enquanto pergunto

porquê

por muito pouco
que saibas do mar
saberás sempre
menos dos homens

fica a raiva a rugir
nas manhãs dos dias
breve anoitecidos

amarelecida espuma

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(torreira; companha do marco; 2013)

crónicas da xávega (122)


até um dia

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o stalone agarra o calão e o ti américo desata o nó que prende a corda do arinque do reçoeiro

maiores que o mar
efémeros como a espuma
enterram na areia

os pés

espero os dias de sol
encharcados de sal
para os reencontrar

um dia

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(torreira; companha do marco; 2012)

um lanço de xávega


sem quaisquer pretensões fílmicas, apenas documentais, procurei registar os diferentes momentos de um lanço de xávega: largar, arribar e aparelhar.

o registo foi feito na praia da torreira, no dia 30 de agosto de 2015, com a companha do arrais marco silva e no barco de mar de mar “maria de fátima”

procedimentos no mar:

– largar o reçoeiro
– largar o arinque do calão do reçoeiro
– largar a manga do reçoeiro
– largar o saco e a calima ou calime
– largar a manga da mão de barca
– largar o arinque do calão da mão de barca
– largar a mão de barca

no arribar notar o modo como o arrais enrola cala da mão de barca na bica da ré, para segurar o barco enquanto espera a onda, ou as ondas, que o hão-de levar a terra “surfando”.

procedimentos no aparelhar:

– a rede fica entre o paral (antepara) do motor e o primeiro traste (traste da ré)

– a cala do reçoeiro fica por cima da rede

– a cala da mão de barca fica debaixo do paneiro da proa até ao traste da proa

– o saco dá a volta ao barco pela ré e assenta no paneiro da proa

sequência:

– manga da mão de barca
– saco
– manga do reçoeiro
– cala do reçoeiro

em paralelo: cala da mão de barca

cada camarada sabe qual a tarefa que lhe cabe em cada um destes momentos e todos funcionam como uma companha.

 

crónicas da xávega (121)


contar porquê

0bs ahcravo_Scan20112 carregar a corda

quantos anos? não os contei (o carregar das redes para secarem ao sol)

começa um ano
continua o tempo

por sobre a areia
nem pegadas
que o vento

das gentes pó
a areia o mar
a memória

fica o retrato a falar
do que perdi a conta

tempo houve em que
era assim
ainda é ainda é ainda

não conto nada
registo o que posso

(torreira; século XX)

 

crónicas da xávega (119)


prefiro a carne ao peixe

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a compnha espera

aqui longe sei que
é esta a gente que se ajoelha
perante um deus invisível
e não se curva diante do mar

a névoa cobriu tudo e adivinhar
o mar não é arte é loucura
nestes momentos oiço-os dizer

prefiro a carne ao peixe

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como se inverno em agosto

(torreira; companha do marco; 2014)

 

crónicas da xávega (117)


as mortes da vida

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a teresa, a cacilda e a olívia (falecida)

os dias são imensos
plenos de areia e mar
sal suor mãos peixe

como se penas as escamas
fazem delas aves
poisadas na beira mar
debicando peixes

são as mulheres da torreira
que à torreira do sol
ganham o quinhão de pão

chamo-as pelo nome
e a olívia
responde-me da memória

a vida está cheia de mortes

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a teresa, a cacilda e a olívia (falecida)

(torreira; companha do marco; 2012)