
ser ainda maior
ser maior que o medo
é arte de pescador

ah! mar dum raio
(torreira; companha do marco; 2015)

ser ainda maior
ser maior que o medo
é arte de pescador

ah! mar dum raio
(torreira; companha do marco; 2015)
pouco

e o maria de fátima desliza nas ondas
peço pouco
não sei sequer pedir
estranham-me por isso
uns livros
algum tempo
comida quanto baste
sem banquete ser
sei-me pouco
pouco peço

arribar só é fácil para quem não sabe
(torreira; companha do marco; 2015)
aparelhar da mão de barca

e não são de cânhamo estas cordas
o massa e o bruno colocam um rolo de corda da mão de barca dentro do barco.
a cala da mão de barca fica debaixo do paneiro da proa até ao traste da proa

encontram-se as mãos no esforço, a companha é isso mesmo
(torreira; companha do marco; 2009)
muleta, mão de barca, regeira

anda areia no ar junto com poalha de água
recordando
quando os barcos eram “empurrados” por uma muleta como a que se vê nesta foto, o barco era mantido na perpendicular à praia, com a ajuda de duas cordas:
– a mão de barca, cala do aparelho que ficava em terra, que o arrais amarrava à bica da ré e ia largando conforme as possibilidades e as necessidades
– a regeira, corda presa ao golfião de bombordo da proa e que estava preso a um bordão enterrado na praia e da responsabilidade de um camarada da companha (enquanto foi vivo e lá trabalhou, era o ti antónio neto que o fazia)
a terceira corda que se vê na foto é a que está amarrada à muleta, para quando o arrais a soltar poder ser recuperada para terra.
vê-se areia por todo o lado porque o motor está a trabalhar e quando a onda recuou deixou-o em seco e o barco não largou como era de esperar.

a cores as cordas são bem visíveis
(torreira; companha do marco; 2009)
o meu amigo luciano

um dos momentos mais arriscados para os pescadores de terra, é o prender dos ganchos nos arganéis do barco, no momento de arribar.
ou quando já com o barco no mar é preciso trazê-lo de novo para terra e esperar por nova oportunidade.
neste registo qualquer uma dessas situações pode estar a acontecer, se o arrais tiver decidido arribar de popa.
tractores, arrais, pescadores de terra e mar, têm de ter em atenção não só as ondas, como a possibilidade de um movimento lateral do barco lhes esmagar as pernas.
o luciano, não grita por medo, grita para orientar o tractor, provavelmente para lhe dizer que está preso o gancho porque é responsável e que puxe o barco para a praia.

(torreira; companha do marco; 2009).
são pescadores

o chegar do saco
há quem deixe nome
obra e fama
herança quanto baste
há quem nada deixe
porque nada foi
no tanto de ter sido
oferecem o corpo
ao mar
vestem-se de vento
e areia
perdem-se à noite
por onde mais
ninguém senão eles
são ninguém
são gente
são pescadores

há os que partiram, os que resistem e os que já não voltam
(torreira; companha do marco; 2009)
poder escolher

decidir é saber ver
pudesse o pescador
escolher o mar
a ti
que podes escolher
digo-te que pescador
sejas
lê o longe e o perto
confia no que vês
só as penas flutuam
na espuma

esperar é sabedoria de pescador
(torreira; companha do marco, 2015)

sem barco vão mar adentro
como ilhas
estes homens

chega a manga, agarra-se o calão
(torreira; companha do marco; 2015)
depois de o saco chegar a terra é preciso, soltar o arinque da extremidade do saco: a calima ou calime.
é isso que faz nesta foto uma pescadeira da praia da mira, da companha do zé monteiro

(xávega; praia de mira; 2009)
a companha

albina amador
vergam-se os corpos
nestes caminhos de areia
dia após dia diversos
ser mulher aqui
é ser mais um
igual na diferença
dar tudo
como todos
ser camarada
na companha

(torreira; companha do marco; 2013)