crónicas da xávega (144)


tarda o sol

00 ahcravo_DSC_5730 marco 09 bw

na terra do espanto
só as nuvens e o mar
se erguem sobre a areia
de onde homens partem

há dias que nos cansam
de sabermos tanto
sobre tantos e sabê-los
mesmo quando nos
sorriem

apesar de muito ter andado
ainda sei de onde sou
como sei que essa gentinha
sendo de onde diz que é
melhor fora que calados
como lixo debaixo de tapete
varridos

o remo bate na água
o barco ganha mar
tudo fica longe

tarda o sol

00 ahcravo_DSC_5730 marco 09 c.jpg

(torreira; companha do marco; 2009)

crónicas da xávega (143)


crescer com a xávega

0 ahcravo_DSC_9584 bw
não são ontem nem amanhã
são agora
começam quando querem

trazem o sal no sangue
e são de mar os seus dias
desde que se lembram

o que para uns é trabalho
para eles brincadeira
sentem-se mais um entre
pai mãe amigos

não há trabalho infantil
na xávega
há prazer desde pequeno

0 ahcravo_DSC_9584

(torreira; companha do marco; 2013)

crónicas da xávega (139)


aos que trocaram o certo pelo incerto

0 ahcravo_DSC_2938 bw

aqui se mostra portugal

falo do mar e dos homens
falo de nós
não dos dos brandos costumes

de nós
dos que desafiaram o sonho
para o tornar realidade

de nós
dos que inventaram ser maiores
que a terra onde nasceram
e partiram para serem
o que lhe negavam

falo de nós
dos que trocaram o certo
pelo incerto

0 ahcravo_DSC_2938

repito-me: são estes os homens que o hino canta

(torreira; companha do marco; 2010)

crónicas da xávega (138)


ti antónio neto

0 ahcravo_DSC_5152 marco 09 s bw

como sempre, calado a olhar para o longe

escrevo mar memória
cansaço vida morte
conto o tempo
os dias onde já não

sei ti antónio
que já partiu

tarefa pesada esta
de carregar certos dias
como se menos um

recordo então os rostos
dos que partiram
vejo-os sorrir de novo
reinvento o tempo
um tempo de sol e mar
o nosso tempo

revejo-o  ti antónio

0 ahcravo_DSC_5152 marco 09 s

ao mar ao fundo continuará sempre

(torreira; companha do marco; 2009)

crónicas da xávega (136)


pelo pão de cada dia

SONY DSC

o mestre de redes e o saco

no chão estendido
um véu rendado
é manto que cobre

homem e mar unidos
na malha dos dias
onde sol sal areia e suor

se fundem num só corpo
por debaixo das nuvens
nos caminhos percorridos

pelo pão de cada dia

SONY DSC

como se um véu de noiva o saco nas mãos do cebola

(torreira; companha do marco; 2010)

as maõs e os olhos do mestre das redes, o cebola,  percorrem o saco em busca de rombos

crónicas da xávega (135)


quisera-me lá

0 ahcrav_DSC_6070 bw

o arribar do calão do reçoeiro

haver ainda mar
por onde olhos
se perdem

se esvai
a raiva imensa
de saber que homens
lobos de homens

sou areia onde espuma
chega-me o sal aos olhos
navego para longe

quisera-me lá

0 ahcravo_DSC_6070

o delmar à direita e o ti augusto de boné ao fundo à esquerda

(torreira; companha do marco; 2013)