
depois da apanha a escolha
já cheira a mar

o segredo da escolha está nas mãos e nos olhos
o delmar viola escolhe o carapau de acordo com o tamanho
(torreira; companha do marco; 2014)

depois da apanha a escolha
já cheira a mar

o segredo da escolha está nas mãos e nos olhos
o delmar viola escolhe o carapau de acordo com o tamanho
(torreira; companha do marco; 2014)
dar voz a quem

saco seco, sacudido, para cima da zorra
a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser
tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça
como esta gente carrega
as redes que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito
leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas
pão à mesa de quem
não tem voz

a companha são todos
(torreira; companha do marco; 2015)
HOMENS

a pancada é dura
sei que antes de entrarem
no barco olham o mar
sei que se benzem
sei que têm fé
sei que precisam de
ir ao marpara ganhar a vida
porque gostam
porque é um desafio
porque são HOMENS

HOMENS
(praia de mira; companha do zé monteiro; 2010)

o stalone, o horácio, o calão, a mão de de barca, a manga
ao fundo virá o saco
no fundo do saco, talvez peixe
se peixe houver, que peixe será
se for do vendável, a como o comprarão, se é que o comprarão
é peixe fresco, é peixe do mar, é suor desta gente
quem o come, come ouro, mas alguns ainda o querem dado. estão de férias e esquecem-se que só o estão, porque lhes pagaram o ano inteiro.
quando aqui chegares traz mais
que uma máquina
um fato de banho
um desejo de sol e mar
traz o entendimento
que esse
nunca o deixes ir de férias

(torreira; companha do marco; 2013)
meditação breve

a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser
tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça
como esta gente que espera
os que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito
leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas
pão à mesa de quem
não tem voz

(torreira; companha do marco; 2009)
cheguem os que ao mar vão, que tudo está pronto para a partida e a voz de mando do arrais
temer e ousar

a difícil arte de arribar
tratar o mar por tu
é arte de poucos
saber antigo
feita de
temer e ousar

só quem não sabe pensa que é fácil
(torreira; companha do marco; 2010)
panamá

o saco chega à praia
é verdade pá
não conheço nenhum pescador
com conta no
panamá
só encontro
uma resposta
trabalho duro
não dá
p’ra ter conta
no panamá

trará peixe? o resultado é sempre incerto
(torreira; companha do marco; 2009)
dos euzinhos

que escrevam depois
o que foram
é coisa que também
me importa
escrever o passado
é trabalho
minucioso e de valia
mas fazer parte dele
porque se foi presente
é coisa que no café
à secretária a facturar
alguns sonham enquanto
flores e aves registam
para postais institucionais
lembro-me deles
quando me dói estar longe
com fome de mar
não são das gentes
da terra que dizem sua
são por si para si
euzinhos

(torreira; companha do marco; 2009)
até um dia

o ti augusto amarra a manga logo a seguir ao calão, para que passe no alador
não têm rosto
a voz deram-na a outros
para que por eles
são o silêncio
o murmúrio
a resignação
falam com eles
quando lhes querem
pedir a voz
não lhes dizem que
roubada será
esquecem-nos depois
falam deles
não por eles muito menos
para eles
têm no rosto escrita
a vida
até um dia
serão apenas
o país profundo
até um dia

dar-lhes voz
(torreira; companha do marco; 2013)
o cinismo reina

mãos de mar, mãos de trabalho
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
as mãos que fazem armas
não são as mãos que as usam
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
aqueles que as armas matam
são quase todos inocentes
desconhecem guerra e terror
são homens mulheres crianças
no sítio errado no momento errado
as mãos que vendem armas
são mãos limpas
tão limpas que odeiam
as guerras e o terror
guerra
é eu matar a tua gente
terrorismo
é tu matares a minha
as mãos que vendem armas
são iguais às tuas iguais às minhas
mas não são as nossas mãos
porque não algemam
as mãos que fazem armas?
o cinismo reina

mãos salgadas, mãos de pão
(torreira; companha do marco; 2013)