crónicas da xávega (95)


a mão de barca ao alador

o ricardo, a cacilda, o sílvio e no final o quim

o ricardo, a cacilda, o sílvio e no final o quim

quando o barco de mar arriba, traz com ele a “cala” – corda – chamada “mão de barca”, com a qual o fecho da xávega se fecha em terra.

o levar da extremidade da “mão de barca” até ao alador, tem de ser feito a força de braços, é um momento delicado porque a corda tem de se manter tensa e o esforço é enorme.

todos os que podem são necessários para este momento.

todos em esforço até ao alador

todos em esforço até ao alador

(torreira; companha do marco; 2014)

postais da ria (99)


eu só termino em mim

corrida dos chinchorros, os treinos

corrida dos chinchorros, os treinos

os primeiros passos
não os últimos
as primeiras palavras
a palavra o nome
o herdado

vi o que vias e procurava
outros olhares
mas era sempre o teu
o olhar recto

sou porque foste e me deste
serei porque assim te vi ser
não pelo que me dizes hoje

queria continuar a ouvir-te
mas eu só termino em mim

momentos para meditar

momentos para meditar

(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)

os moliceiros têm vela (145)


vive e sonha

o equilíbrio natural da ria

o equilíbrio natural da ria

nada é tão certo
como a incerteza

sê tu no instante
em que a ave é barco
e os rios correm serenos
por entre margens largas

escuta o rumor do vento
a beleza dos flamingos

vive e sonha

o moliceiro "marco silva" desliza por um canal da ria, sob o olhar atento dos flamingos

o moliceiro “marco silva” desliza por um canal da ria, sob o olhar atento dos flamingos

(ria de aveiro; esteiros do bunheiro)

o

crónicas da xávega (94)


fico com os barcos

como se ave fora e voasse

como se ave fora e voasse

quando a faca corta a água
o sangue é incolor
como se o mar chorasse

despeço-me de ti
porque já não és
e eu que fui contigo
sou agora outro

fico com os barcos
reaprendo a navegar

navegar é preciso....

navegar é preciso….

(torreira; barco de mar maria de fátima; 2015)

postais da ria (98)


regata de chinchorros

laurindo, alfredo miranda e o filho do domingos da grila

jim, alfredo miranda e o filho do domingos da grila

de todas as regatas que se fazem na ria, já o escrevi algures, a mais espectacular é a dos chinchorros a remos.

este ano concorreram 13 e a classificação final foi a seguinte:

1ª – Marisa e André (bicampeões)

2ª Sta Maria Adelaide

3ª Raquel

muito difícil de fotografar. de terra só a chegada ou eventuais treinos e na ria, pela rapidez com que tudo se desenrola e pela disposição das bateiras – paralelas entre si – e o consequente posicionamento do barco onde vamos.

este ano, ficámos a sul da bateira, mais a sul, a “Raquel”. a minha técnica é escolher uma bateira e fixar-me nela, por momentos posso mudar, mas mantenho-me fixo numa.

este ano, escolhi a “Raquel” e experimentei registar algumas expressões de remadores.

este foi um dos registos possíveis.

ahcravo_DSC_1939

(torreira; corrida de chinchorros; s. paio; 2015)

postais da ria (97)


o lixo debaixo do tapete

não é fácil trabalhar aqui

não é fácil trabalhar aqui

lê tudo ao contrário
as horas da beleza
não são as únicas
horas da realidade

procura os homens
pergunta-lhes o como
quando e para quê
são eles o teu relógio
procura-os nas horas más

esconderam o lixo
por debaixo do tapete
na ilusão de terem limpo a casa
não sejam os teus olhos
tapete novo em chão gasto

dou-te a carne dos dias
para que sintas na boca o sangue
dos que os habitam

reparte-a

o meu amigo aú vai amarrar a bateira

o meu amigo aú vai amarrar a bateira

(torreira; cais do guedes; verão, 2015)

crónicas da xávega (92)


o meu tempo é este

o chegar do saco

o chegar do saco

ficar destes dias a memória
onde rostos gestos sentires
os nomes os amigos
o ter sido aqui tanto

difuso o nevoeiro
começa a cobrir tudo
em breve quase nada
restará

o meu tempo é este

o chegar do saco

o chegar do saco

(torreira; companha do marco; 2013)