os moliceiros têm vela (74)


ausente

ahcravo_DSC_6788 regata moliceiros bico bw

o rosto parado
a expressão ausente
o corpo prisão

resta o que resta
não será muito nem pouco
tão só o que ainda

perdido o sorriso
na voz treme a solidão
ouve-se o medo

é ensurdecedor

ahcravo_DSC_6788 regata moliceiros bico

(murtosa; regata do bico; 2009)

cada cavadela uma minhoca (1)


galiza, onde os moliceiros e as companhas?

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o zé rito quando o mastro quebrou no final da regata da ria, em 2014

não há muito tempo, dei uma volta pela página da câmara municipal da murtosa na internet
http://www.cm-murtosa.pt/ e, logo na entrada, nas notícias, encontrei a seguinte referência:

Murtosa destacada na imprensa galega 

http://www.cm-murtosa.pt/templates/genericdetails.aspx?id_object=7551&divname=116s154s4&id_class=4

e a imagem da notícia lá estava, mas lê-la era impossível. contrariamente ao costume neste tipo de publicações, a sua divulgação é acompanhada pelo link da página onde a notícia pode ser lida. mas, numa murtosa moderna isso não se faz: mostra-se um boneco ilegível, diz-se onde foi feita a publicação (escreve-se o nome) e pronto. missão cumprida.

como fiquei satisfeito com a notícia e insatisfeito com o facto de não a poder ler, fui atrás dos jornais em causa: “Faro de Vigo” e “La Opinión – A Coruña”. depois de muito navegar e alguma imaginação encontrei.

Faro de Vigo: http://mas.farodevigo.es/especiales/turismo-galicia-2015?id=2177

La Opinión – A Coruña : http://mas.laopinioncoruna.es/especiales/turismo-galicia-2015?id=2177
http://ocio.laopinioncoruna.es/planes/fin-semana/pla-1878-marea-tradiciones.html

lê-se e entende-se muito bem, custa é a compreender.

é publicidade paga e quem paga tem o dever de exigir, eu, que durante alguns anos dirigi uma revista de âmbito nacional, sei muito bem como funciona este mercado: pago um anúncio e tenho direito a uma página, as condições acordam-se. tudo bem. é investimento e a murtosa merece e precisa.

não sabia, e fiquei a saber é que as comunidades piscatórias da murtosa, são o bunheiro e a torreira, entendem o bunheiro? então e a murtosa? onde ficam o bico e o chegado? foram anexados pelo bunheiro?

fala-se no moliceiro, mas nem uma imagem, uma referência às regatas da ria……

não se fala nas companhas, mas na bandeira azul do monte branco. imaginem se os galegos apanham a maré vazia…..

sabiam que a enguia é a espécie mais popular da pesca na ria? há quantos anos?

numa época em que o turista procura a diferença, a murtosa oferece os espectáculos das companhas, “o mar a trabalhar”, e as 3 regatas anuais de moliceiros que tantos turistas procuram. nem uma palavra sobre isso.

não sei quanto gastou o executivo, mas muito ou pouco, foi mal gasto. se o dessem para ajudar a manter a tradição dos moliceiros à vela …… se o dessem …..

é assim que bate o coração da ria, mal

ahcravo_DSC_1418_mastro partido

o executivo já parte com o mastro neste estado, que esperar dele?

(só uma nota final, não sou a oposição ao executivo camarário, essa função pertence a quem se diz ser, sou apenas um cidadão atento e que gosta da terra e das tradições que lhe couberam em herança)

os moliceiros têm vela (73)


esperar

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aprender o tempo
no contar pelos dedos

lento muito lento
o movimento

parados os olhos
imóvel o rosto
sem expressão
esperar esperar
não há primavera
nem andorinhas

aprender o corpo
no contar do tempo

o movimento
lento muito lento
até que parado

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(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

postais da ria (71)


provocar é preciso

toda a imagem é uma pergunta por responder

toda a imagem é uma pergunta por responder

não procures no que lês
o eu que o escreveu
procura-te

aceitares ou recusares
as palavras lidas
é seres tu

será sempre morta a escrita
que não provoque no leitor
repulsa aceitação ou
no limite da comunhão o
“porque não fui eu?”

se te sentas nas minhas palavras
e adormeces
de nada serviu tê-las escrito

não me procures no que leste
procura-te porque o fizeste

o início podia ter sido assim

o início podia ter sido assim

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (72)


das causas

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

como se bailassem…. e bailam

não tenho ilusões
procuro caminhos
tento não ser mais um

calo o silêncio
procuro a voz certa
a cada instante

ser homem de causas
é a causa de estar aqui

há uma ria por dentro da ria, a dos moliceiros

há uma ria por dentro da ria, a dos moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2007)

os moliceiros à vela têm futuro?


duas gerações o mesmo sonho

duas gerações o mesmo sonho

o abraço que une o ti zé rebeço e o zé pedro, é a prova de que só não há futuro para os moliceiros com vela, se o não quiser quem manda nesta terra.

por experiência própria, sei que se a autarquia não quiser nada se faz. e eles sabem-no. foram eleitos pela esmagadora maioria dos murtoseiros, o que fizerem, ou não, é em nome dessa maioria e com o seu apoio, gostem ou não que eu o diga.

no passado foi o moliço, depois o moliço conviveu com as regatas. agora são as regatas e os passeios. e amanhã?

o zé pedro pode ser o futuro ou mais uma oportunidade perdida. com os poucos anos que tem, já é um arrais com provas dadas.

será que quem manda na terra não vê que ainda há jovens que sonham numa murtosa com moliceiros?

o ti zé rebeço e o zé pedro

o ti zé rebeço e o zé pedro

os moliceiros têm vela (71)


aos moliceiros

mete água? escoa!

mete água? escoa!

homens inteiros
até ao fim
a palavra na mão
que aperta

homens de fibra
feita na lide
dos dias de norte
terras muitas
escritas no corpo
sofridos dias

levarão com eles
mais que o corpo
a história da terra

água que entra tem de sair

água que entra tem de sair

(ria de aveiro; regata de ria; 2014)

os moliceiros têm vela (70)


maldigo os chulos

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

terem os homens
o tamanho dos barcos
unidos na mesma frema

falo da terra e uso
a sua linguagem
palavras inventadas
como tudo o que é
marca de lugar

indescritível o amor
indizível o sentir

olho-os e invejo neles
o serem assim
tão uns dos outros

maldigo os chulos

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

(murtosa; regata do bico; 2008)