os moliceiros têm vela (22)


dos amigos

como se num baile

como se num baile

sê verdadeiro com todos
os amigos
o tempo dir-te-á quem

uma pedra bateu na janela
estilhaçou o vidro
o vento bateu-te no rosto

atirada de dentro da casa comum
por mão amiga dita
feriu-te mais o sentir que o saber

joeira os homens
como o agricultor o milho
não desistas de ti

há mais caminhos que pedras

dancem e brilhem os olhos de tanto

dancem e brilhem os olhos de tanto

(torreira; regata do s. paio, setembro; 2014)

pinturas de moliceiros


https://rd3.videos.sapo.pt/playhtml?file=https://rd3.videos.sapo.pt/2ILGiVDGdZYpeeQLqJdH/mov/1&autoStart=1

 

um excelente vídeo registado pela “Memória Média”, em que a profª clara sarmento, cuja tese de doutoramento foi, exactamente sobre a pintura dos painéis de moliceiros, elaborando mesmo uma lista de tipos de decorações.

os moliceiros têm vela (20)


sabe-te

o marnoto persegue o manuel da silva

o marnoto persegue o manuel da silva

na concha das mãos
coisa pouca
quanto baste para
matar a sede

não tem dono a água
deu-a a rocha
e quedou-se silenciosa

os nomes são letras
mãos dadas
palavras

na concha das mãos
um barco
oferta de um tempo
de ninguém
porque de todos

ilusão o seres dono
tão breve é o seres aqui
depositário apenas
da memória comum

sabe-te saberás

é de norte o vento, são moliceiros

é de norte o vento, são moliceiros

(ria de aveiro; regata da ria; junho, 2014)

postais da ria (56)


falo de ti

os árduos caminhos do pão

os árduos caminhos do pão

admito que penses
sei que existes
e por isso deves

admito que tenhas opinião
sei que existes
e por isso deves

admito que deves
admito que penses
até admito que admitas
que eu pense que tu existes
e a tua opinião
é escrava dos teus

interesses

pesados os passos, perdidos

pesados os passos, perdidos

(ria de aveiro; torreira; cabrita de pé)

os moliceiros têm vela (19)


amor longe

só o vento os leva, na memória ficam

só o vento os leva, na memória ficam

é de longe
que a terra se sente
mais íntima
mais nossa

não estranhes pois
este amor
que se estende por um tempo
onde não habitas
porque

foste dos que ficaram

serão sempre belos e muitos, assim queiramos

serão sempre belos e muitos, assim queiramos

(ria de aveiro; murtosa; bico)

postais da ria (55)


meditação à beira ria

sempre em frente

sempre em frente

vou por onde
caminhos houver por
de água serão se
necessário for
não os temo

foi tempo de subir
e recusei
foi tempo de voar alto
dobrando-me

“vê se sobes na vida filho”
e eu
“não quero subir quero ficar ao lado”

ficou-me hirta a coluna
abertos os olhos atentos
pronta a palavra necessária

não subi
verdade se diga
mas fiz alguns

ficarem
ao nível do chão

(ria de aveiro; murtosa; bestida)

os moliceiros têm vela (18)


haja janelas

há um barco que nos espera para partir

há um barco que nos espera para partir

falo agora de um tempo cansado
curvado ao peso dos dias
o meu tempo
eu

é duro neste tempo onde o meu por dentro
olhar e ver
sentir
ser irmão do irmão
e irmão de ainda mais

solidão não é estar só
é estar mal acompanhado

falo de mim e digo
amanhã serei o mesmo
doa o que doer
a quem doer

haja janelas

não partas antes de mim

não partas antes de mim

(murtosa; regata do bico; 2007)