digo casal
penso
casa
partilha
amor
imagino-os
dão-se as mãos
os corpos
no partilhar
da labuta
diária
amam-se
visto-o de oiro
(ria de aveiro; torreira; mariscar)
a cabrita baixa é uma das artes mais duras da ria de aveiro.
é uma arte mariscadora de arrasto pelo fundo que exige muita força de braço, jogo de cintura e muita resistência.
são frequentes as lesões no músculo do cotovelo, por isso a posição da mão que sobre ele se fecha.
o sofrimento é visível no rosto de ana tripas.
na ria é assim
(torreira; cabrita baixa; 2012)
são estes os momentos mais dramáticos e “fotográficos” da xávega, aqueles em que procuramos um momentâneo equilíbrio entre a amizade e a
admiração dos que dentro do barco vão, e a força do mar a espumar raiva.
é uma divisão entre o espectáculo e a amizade/admiração.
para o que der e vier, com eles e com todos para que saibam como é, o imaginem pelo menos: estou lá e procuro fazer o melhor. isso lhe devo como amigo.
se as faço a eles as devo, se não as faço melhor é porque é muito difícil ser-lhes semelhante na arte.
(torreira; companha do marco; 21010)
espero
espero sempre
mesmo se não
saiba o quando
o como o porquê
é como se
um tempo outro
uma memória presente
pressentida
algo difuso
provocadoramente belo
existo
por entre
sem muitas vezes
saber como
tanto tempo assim
nada é nítido
temo quando o for
(torreira; companha do marco; 2010)
a história da ria
escreve-se com m
de moliceiro
o barco menina
donzela de luxo vestida
o barco de cintura fina
como as raparigas da
murtosa
foram o ganha pão
de tantos
o moliço a maior fonte
de riqueza da ria
moliceiro
é caso raro
é nome do barco
e do homem que nele
escrever-se-á
sempre com m
mesmo se
memória só um dia
(torreira; regata de s. paio; setembro, 2101)
é de cavala o lanço
farto e fraco
pesado na rede
parco no rendimento
os olhos dizem onde
as mãos vão como
aparta-se algum carapau
peixe de escolha
(assim dizem do robalo do linguado)
pela ponta da cauda
as lacraias
(peixe aranha)
um apertar do dedo se picado
pausa para conter a dor
o saber destas mãos
que sem qualquer protecção
são peixes no mar deles
mãos limpas
por mais que
mãos de peixe
mãos de mar
mãos
(torreira; companha do marco; 2010)
a tua casa
a tua vida
o teu lugar onde
és o que
o teu contexto
de sobrevivência
quanto custa seres
aqui?
o que és se aqui
não for?
sobreviver
não é subservir
o homem
é ele e a sua palavra
onde quer que
desconhece outra geografia
que não a do que pensa
a verdade não é localizável
no mapa dos interesses locais
é
mesmo que a sonegues
ou
propositadamente a ignores
partiu-se um vidro na janela
era o teu nome