memória da torreira_2007
dormir no mar
mais um
quando o mar trabalha na torreira_olívia borras
“é peixe do maaaaar!!!!”
e o mar corria
pelos caminhos
entrava nas casas
matava outras fomes
uma sardinha
para quantos ?
quantas sardinhas
para um ?
e de novo o mar pingava
da broa para o prato
era bebido
lambido
sorvido
mesmo que agora
já não corras
nem uses canastra
tens da xávega
uma alcunha marcante
olívia borras
(torreira, século XX)
Nota: o avô da olívia, o ti manel borras, falecido em 1947, é uma figura típica e controversa na torreira. foi pescador, sofreu naufrágios, mas terminou a vida alcoolizado, sendo sua a célebre frase ” se o mar fosse de vinho ia a pé até à américa”.
fiz alguma investigação sobre a vida do ti manel e muito haveria para contar, desde o papel do vinho nas companhas, aos interesses dos arrais, dos vendedores de vinho “salroeiros” – de salreu -, à participação do ti manel nas festas da “gente fina” da terra” e ao apoio da família pinto ( fundadora do banco pinto & sotto mayor), que lhe pagou o funeral na condição de que este passasse à porta de sua casa.
história para outra altura
vai
quando o mar trabalha na torreira_celestino
a vida fez de mim o que sou
o mar afeiçoou-me os traços
queimou-me o rosto
rasgou-me as mãos
ensinou-me a ser paciente
a só ter medo do medo
espero pelos dias de sol
pescando noutras águas
o mar é ainda o desafio
casa grande o barco alberga-me
o corpo da fúria das vagas
leva-me onde talvez peixe
deixo o meu nome escrito
na areia
junto ao de todos os meus camaradas
que o tempo levou
e o vento apagou
(torreira; século XX)
O último barco Avieiro da Chamusca
Num dos nossos encontros com a família Grilo, avieiros da Chamusca, surgiu o apontamento que agora apresentamos em Folha Informativa.
Trata-se da construção do “último barco avieiro”, do Sr. Jaime Grilo, conforme nos informou. Descobrimo-lo por acaso, na sequência da nossa visita à Chamusca, para assistirmos ao espectáculo “Tejo, Cais da Lezíria”, onde travámos conhecimento com o Sr. Presidente da Câmara e, posteriormente, com o Sr. Jaime.
Poderá não ser o “último barco avieiro” a ser lá construído, e não o será certamente, mas o Sr. Jaime assume-o como o “último da sua vida”. É uma pequena homenagem a esta família que tão calorosamente nos acolheu, aquando das nossas visitas em busca de “emoções dos avieiros”.
Aos autores desta Folha, Ana Paula Pinto e Carlos Vitorino, apresentamos os nossos sinceros agradecimentos.
O Gabinete de Coordenação
(Projecto de candidatura da cultura Avieira a património nacional imaterial e da Unesco)
nada cede
de passagem
o sábio
escuta o silêncio
lê na luz
estende as mãos à chuva
a verdade é-lhe estranha
aceita
a procura de
sempre
o sábio
sabe que não sabe
dorme por fora apenas
por dentro
no silêncio da sombra iluminada
tudo nasce e existe
o sábio
sabe ser agora
é essa a sua única sabedoria
se lhe perguntares
o que sabe
está de passagem
sempre
(buarcos)









