queria dizer-te desta solidão em que nos deixam os amigos que partem para sempre não não é a chamada do mar que os leva mas a da terra que não perdoa só isto te queria dizer

a morte do fotógrafo
foi a enterrar hoje em setúbal terra onde nasceu eu também e fotografou com o coração o meu primo zé pinho onde quer que estejas zé regista a eternidade para a eternidade aqui fica uma imagem do mar onde sado morre para renascer imensamente maior assim tu abraço forte guardo o livro de fotos que publicaste os postais de natal que eram fotos tuas guardo-te

palavras de ahcravo gorim, voz de isabel marcolino
perdi definitivamente o meu pai(selfie na bilbioteca habitada) não publiquei nenhum livro não ganhei nenhum prémio fui apanhado pela doença de bowen vá consultem o dr. google perdi definitivamente o meu pai não contraí covid ainda já tomei as três doses e observo as regras ganhei resiliência gosto da palavra embora não saiba muito bem o significado está na moda convém usar aumentaram as desilusões morreram alguns amigos li muito fotografei o que pude gravei poetas e juntei umas letras fiz e reforcei amizades os amigos sempre não arranjei mulher mas ganhei uma sogra uma desgraça nunca vem só de resto exames e análises foram bons o meu urologista queria-os para ele as rotinas confirmam que tirando o que está mal o resto está bem estou vivo e continuo a inventar dizer que isto é poesia faz-me rir mas é o melhor remédio e por isso mesmo comparticipado a cem por cento pela adse
“Guarda o esplendor … ” é um inédito de leonora rosa, a publicar no livro ” LÂMINA DE PÓLEN”
meticulosamente
começou a despi-la
os dedos prendendo-se
nas pequenas coisas
desabituados de
uma a uma
as peças
dispostas com esmero
na cadeira mais próxima
até que
o corpo surgiu inteiro
e puro
limpo de disfarces
admirou-lhe a perfeição
contemplou-a absorto
durante alguns segundos
tinha conseguido
depois
depois entregou a boneca à filha
para que lhe vestisse o conjunto novo
que a mãe momentaneamente ausente
lhe tinha oferecido pelo natal
o poema “Dois Tiros de Pólvora Seca” faz parte do livro “Epilepsy Dance”