zé graxa
(coimbra; praça da república; 2005)
sobre coimbra os olhos deitam-se e sonham o terem sido
do outro lado da rua tem havido sempre um outro lado da rua o sol ilumina as casas aquece-as as mãos buscam-no quase o agarram de tão próximas do outro lado de muito mais ruas sombrios os becos onde se morde a fome nas sobras de ontem de outrem frio medo revolta medo revolta frio revolta frio medo por dentro há sol do outro lado da rua roubaram-no
(coimbra; r. visconde da luz)
sobre coimbra os olhos deitam-se e sonham o terem sido
deles direi à margem inventaram os centros comerciais a céu aberto são senhores do marketing reinam onde o dinheiro escassa sabem onde e vão pais do povo a quem estendem a mão contrafeito numa terra onde a marca marca quem a tem o prazer de enganar a imagem de desconstruir os símbolos não enganam é mesmo feito em portugal aqui onde quase tudo é feito na china com marca sorriem sempre sorriem muito de onde vêm para onde vão é coisa sua agora estão aqui e inventam o sonho a quem só isso resta sigam-nos
sobre coimbra os olhos deitam-se e sonham o terem sido
beco com saída fui muito mais do que serei o tempo é-me agora adverso o tempo e os homens que nele consomem o pouco que de mim resta as glórias de ter sido os feitos secretos de um quotidiano digno os beijos dados e pedidos os filhos os amigos os amores as memórias as lutas sou cada dia mais cada dia menos esperava mais esperava o que sempre esperei como eu tantos o respeito a dignidade a consideração um fim de acordo comigo com o que fui o que fiz o que sou o que merecemos agora olho tudo com medo de que mais um me diga não és porque não pode dizer não foste amargam-me o futuro escasso porque não me podem roubar a vida vivida tenho-os em pouca conta que pouco valem no serem assim abjectos não deixarei porém que me calem mesmo que agora já não tenha as forças que tive os meus murmúrios serão o grito da revolta CANALHAS estou num beco com saída