Berbigão sem comprador na Torreira – RTP Noticias, Vídeo
Berbigão sem comprador na Torreira – RTP Noticias, Vídeo
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estou lá logo pela manhã

torreira; 2007
uma das artes de pesca da ria de aveiro é a arte do berbigão.
o aparelho é a “cabrita” que pode ser “alta” ou “baixa” consoante o tamanho do cabo, tendo em conta se a apanha é feita em zonas de profundidade ou em “cabeços”.
nesta arte o trabalho, para ser rentável, é repartido entre marido e mulher.
a apanha depende de três condicionantes:
1. da permissão para a apanha
2. do tipo de licença do pescador
3. da encomenda
cada saco leva 20 kg de berbigão, por aqui se vê a força do sexo fraco da ria.

torreira; 2007
(falaremos dela com mais pormenor técnico e fotos a seu tempo)

o barco moliceiro, princesa da ria
de todos os barcos que sulcaram, ou sulcam ainda, a ria o moliceiro é sem dúvida o mais belo. atrever-me-ia a dizer que é em simultâneo uma obra de arte e um instrumento de trabalho.
perfeitamente adaptado ao trabalho na ria, em que a as águas de pouca profundidade são predominantes, o moliceiro é um barco de fundo chato com um pontal de 40 a 45cm, navegando, quando carregado, com os bordos ao nível da água.
o facto de o pontal (distância entre o convés/bordo e o fundo) ser tão pequeno, facilita o trabalho dos moliceiros que, para arrancar o moliço do fundo, arrastavam os ancinhos os quais, depois de carregados tinham de ser erguidos e despejado o moliço dentro do barco. quanto menor o pontal, menor o esforço despendido.
se na sua construção de base se encontra uma adaptação ao meio onde se move, e ao fim a que se destina, há porém factores que nada tem de utilitário: a forma da bica da proa e os painéis pintados à proa e à popa ou ré.
o que é que terá levado a que o moliceiro tenha uma bica da proa tão curva? tão semelhante à da barca de mar (da arte-xávega)? não há qualquer finalidade utilitária nestes pormenores, são puros adornos.
com um comprimento entre 14,50m e 15m (Drª Ana Maria Lopes – Moliceiros : A Memória da Ria) e uma boca entre os 2,50m e os 2,60m, o moliceiro é um barco de linhas esbeltas e extremamente elegantes: uma jovem princesa que se passeava pela ria.
é esse o seu encanto, a causa da paixão de todos os que nele trabalharam, passearam ou meramente contemplaram. é impossível ficar indiferente a uma princesa. por amor a ela às regatas todos se entregam, sem contrapartidas que não a emoção.
os moliceiros e apanha do moliço
de acordo com “ Relatório Oficial do Regulamento da Ria”, de que é co-autor o então capitão-tenente jayme affreixo, publicado em 1912, os números relativos à apanha de moliço eram os seguintes:
1.883 …. 1.342 barcos
1889 …. 1.749 barcos —— 957 moliceiros ——- 2.687 lavradores
1911 …. . 1.054 barcos —– 875 moliceiros ——- 1.633 lavradores
“A estatística de 1.883 dá 158:000$000 réis para o valor anual da colheita ao preço médio de 1$250 réis a barcada.
o cálculo do seu rendimento pode fazer-se de acordo com o seguinte modo:
“Existem 1.500 barcos (aos 1.054 registado na capitania acrescenta 400 a 500 não registados), cada um dos quais, nos 3 meses de Agosto, Setembro e Outubro, à razão de uma barcada por dia de trabalho, colhe seguramente 70 barcadas, cujo preço médio não é inferior a 1.$800 réis; e, no resto ano, à razão de uma barcada por 4 ou 5 dias, colhe 30 barcadas ao preço médio de 4$000 réis. Igualando porém este preço ao anterior, para desconto de barcos de lavradores que nesta segunda época não exercem a apanha temos: 1.500 barcos, com 100 cargas cada um, a 1$800 réis, ou seja um rendimento anual de 2.700$000 réis”.
ainda de acordo com o mesmo relatório:
“ Em 1907 e 1908 o rendimento total da produção marinha da ria de Aveiro é:
Peixe ………. ………………………………….…54.000$000 réis
Peixe de viveiros ………………………….……3.000$000 réis
Algas (moliço) valor superior a …….. 270.000$000 réis
Juncos, valo superior a ……………….. 73.000$000 réis
Total …………………………………….…… 400.000$000 réis”
por aqui se vê o valor que representava o moliço na riqueza produzida pela ria.
(torreira; 2008)
na ria de aveiro existem algumas ilhas, zonas que se mantêm secas durante todo o ano, dentre estas destacam-se três na zona mais norte: monte farinha, amoroso e testada.
a riqueza das ilhas residia no junco que crescia no seco e no moliço que crescia debaixo de água. na ilha de monte farinha chegou a haver gado, de que se destacava a criação de cavalos.
a ilha do amoroso tinha três sócios, um dos quais era meu tio avô, motivo pelo qual o acompanhei muitas vezes nas viagens que fazia à ilha, para reparações nos canais e manutenção da casa que aí existia e tinha um poço e uma figueira.
para poderem explorar o moliço das zonas submersas da ilha, os proprietários pagavam à capitania uma licença especial, só podia apanhar moliço na ilha quem tivesse autorização dos donos. não havia zonas exclusivas para cada barco, toda a zona submersa podia ser explorada.
ao domingo de manhã, depois da missa, vestindo o “fato de ver a deus”, os moliceiros iam a casa do meu tio, responsável pela contabilidade da ilha, que os aguardava com uma garrafa de vinho doce e um cálice, enquanto nas mãos segurava um pequeno saco de pano.
cada moliceiro dirigia-se ao meu tio e dizia: sr. césar esta semana foram tantas barcadas de moliço, a tanto cada uma dá…. e punham o dinheiro no saco, bebiam um cálice e iam até casa.
era assim até à hora de almoço: encontros de homens de palavra.
foi com estes princípios que fui criado e se tenho pais biológicos, tenho na ria uma outra família que me educou e de mim fez o homem que sou.
curiosidade
quando em 1923 raul brandão publicou o livro “pescadores”, (obra completa em : http://docs.paginas.sapo.pt/raulbrandao/Os_Pescadores.pdf). o autor da capa desenhou nela um moliceiro, o mesmo se repetiu, pelo menos, na segunda edição. ao querer que a capa fosse apelativa e, não sei se por ignorância, se por motivos meramente estéticos, escolheu um moliceiro para capa de um dos mais bem escritos e estudados livros sobre os pescadores portugueses.
o moliceiro que barco de pesca nunca foi ……