poema para estes dias
NÃO
(sal do mar; rer; quinta da salina do morro; 2019)
amanhã cá em casa
é dia da mulher
à hora mais ou menos
esperada
toca à campaínha
e entra
no fim da sessão laboral
a casa cheira bem
a roupa passada a ferro
a cama feita de lavado
e tudo tudo tão limpo
amanhã cá em casa
é dia da mulher
um dia à tarde
todas as semanas
a toca do lobo
fica um lugar habitável
(sal do mar; rer; morraceira; 2016)
se pequeno é o país
serem de palavra os homens
era grandeza diversa
conquistámos a liberdade
de ser inteira escrita
dita a palavra assumida
nas brancas paredes
as palavras inscreveram
os dias sem medo
cinquenta anos depois
desbotadas paredes
envergonhada palavra
o pequeno país
de pequenos homens
é um circo falido
(carregar sal no dumper; armazéns de lavos; 2019)
tantos anos
tantas vidas
tanto amor
casas ruas
cidades
um povo é uma língua
uma terra
um lugar onde morar
cidades
casas ruas
tanto amor
tantas vidas
tantos anos
mata-se um povo
salga-se a terra
arrasam-se casas
ruas cidades
a apagar a memória
a história
chamam agora limpar
assassínio programado
assistido apoiado
não por nós não por nós

(mexer; armazéns de lavos; 2017)
espírito criativo
nunca tive
não sei o que é
por isso escrevi os dias
como foram quando foram
de sol mar e vivos corpos
fui tudo o que escrevi
sou tudo o que escrevo
no tempo que me resta
sou espectador atento
deste mundo cada vez
mais merdoso e escrevo
meto as mãos na merda
agito-a mexo-a bem
depois
atiro com ela à cara
de quem posso
e é pouco
(sal do mar; rer; morraceira; 2016)
plantei uma flor
no mar
o genocídio continua em gaza
o genocídio continua em gaza
na areia a meu lado
os teus olhos
procuraram a flor
sorriram ao vê-la
a guerra continua na ucrânia
a guerra continua na ucrânia
por entre as ondas
deste-me um beijo
a fome e a guerra em áfrica
a fome e a guerra em áfrica
depois acordei
e só me lembro
deste sonho
mediterrâneo é nome de cemitério
mediterrâneo é nome de cemitério
(sal do mar; rer; morraceira; 2016)