tão leve a partida?


 

vou com o vento
com ele cheguei
só há partida se

entendo agora
o que dizem das gaivotas:
não tenho peso
flutuo

todas as praias
são a minha praia
todos os mares
são o meu amar

parto e fico
e reparto-me
no ser assim
por caminhar ainda
onde já muitos

calçaram pantufas

 

o calinas


 

calinas (há quantos anos?)

olho-te nos olhos
e é como se perguntasse:
que fiz eu ?

aqui
onde a vida começa
com o nascer do sol
o queimar do sal

aqui
envelhece-se mais cedo

nas mãos sulcos rasgados
pelas cordas
que puxam as redes e os barcos

escamas de peixe
salpicam-me o rosto
brincar é escolher sardinha
aguentar a picada do peixe aranha
e não chorar

aqui
cresce-se depressa
a trabalhar o mar

(torreira)

solheira_o largar (2)


escutar o silêncio

lentamente as redes vão deslizando para o interior da ria, em busca de peixe.

o silêncio pode-se ouvir e, como no meio do mar quando o barco da xávega lança o saco, estamos noutro mundo.

os olhos controlam a direcção do barco que deve seguir uma linha paralela à margem e no sentido norte/sul, ou como dizem os pescadores da ria, baixo/cima.

de tempos a tempos um pequeno toque no motor faz com que a bateira retome a direcção certa e não conflitue com as outras redes. é uma relação de solidariedade efectiva a que se encontra estabelecida entre os pescadores.

durante cerca de meia hora a rede desliza e os olhos lavam-se na limpidez da ria, enquanto o cérebro navega noutras terras.

a sensação de plenitude e liberdade é imensa.

assim a ria e suas artes

(ria de aveiro_torreira)