(memória de milfontes nos anos 80)


 

amor à beira mar

queremos estar vivos hoje

recusamos grilhetas antigas de senhores que já matámos

recusamos prender estas bocas

eu queremos transbordantes de música

queremos estar vivos hoje

lançar braços sobre o silêncio

rasgar a solidão que cerca de arame farpado

os corações amortalhados nas grandes metrópoles

queremos estar vivos hoje

dizer esta alegria por dentro de nós

derrubar muros e barreiras de línguas e nações

somos todos a mesma gargalhada

e ousamos querer tudo que a tudo temos direito

queremos estar vivos hoje

que ninguém nos venha dizer por onde devemos ir

porque hoje

hoje nós sabemos  que queremos

os caminhos por onde seguir

queremos estar vivos hoje

gritar raivas antigas alegrias novas

pontes que construímos para o amanhã

que hoje queremos nosso

porque hoje

hoje

queremos estar vivos sempre