um painel com história dentro


painel da ré do moliceiro do ti zé rebeço

na minha opinião o moliceiro será um dos mais belos barcos do mundo, digo um dos mais belos porque não os conheço todos, mas certamente será, para além de ser um barco com uma configuração esbelta.

um dos aspectos mais importantes do moliceiro é a decoração, com especial cuidado nas pinturas dos painéis da ré e da proa, num total de 4. teses de doutoramento existem sobre estas decorações, tipologias e significados, tal a importância que revestem na história destes barcos.

este painel da ré do moliceiro a.rendeiro, do ti zé rebeço, da murtosa é, para mim, um dos mais belos que encontrei nos últimos anos: é a história do barco dentro dele mesmo.

a pintura retrata os tempos áureos do moliceiro e fala-nos do que foi, sem saudade, enaltecendo a beleza passada.

deixo-vos esta imagem e nela um pouco da história da ria de aveiro.

(torreira, regata de moliceiros 2011)

para nelson mandela


foto tirada de pessoasempessoa.blogspot.com

uma corda
desce pela parede
dos dias

um raio de sol
espreita
por entre grades

o cimento
cheira a homens
cheira a suor
a sangue
a luta

negras
as vozes erguem-se
nas ruas
os corpos movem-se
ao sabor de danças guerreiras
herdadas
jamais roubadas
sonegadas
branqueadas

pedra a pedra
o cimento caiu
a luz entrou
o muro ruiu

a luta
ainda não terminou
mas o teu dia
madiba
é O DIA

efémero


espuma do tempo
isto somos
tudo e nada
o momento o diz

onde fomos
ainda seremos?
onde somos
seremos o que fomos?

quando não formos
quem será
o que fomos?

sento-me
em frente ao mar
não penso
sento-me
apenas

isso sou
hoje
aqui
onde estou

um homem sentado
a olhar o mar

(torreira; 2010)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quando o mar trabalha na torreira_flávia


sou
a que nunca ficou em casa
nunca foi ao mar

sou
a que ajuda a empurrar o barco
a que o espera em terra

sou
a que escolhe o peixe
e entre duas picadas de peixe aranha
se levanta
e nasce na areia um outro rio

sou
a mãe
a mulher
a filha
a viúva

sou
a mulher da arte
que a arte não lembra

(torreira; anos 90)