não escrevo


enquanto escrevo

quantas crianças morrem

de fome?

quantos sofrem

tortura?

quantas mulheres são vítimas

de violência?

 

enquanto escrevo

dor

privação

riqueza

miséria extrema

sem abrigo

mansões de luxo

aqui

neste planeta onde

 

enquanto escrevo

onde estão as  mãos

estendidas

não para a agressão

mas para o amor?

 

enquanto escrevo

lembro-me:

hoje é dia mundial da poesia

e procuro-a ainda

fora do poema

que não escrevo

quando o mar trabalha na torreira_antónio trabalhito (barbeiro)


antónio trabalhito (barbeiro)_falecido

 

pescador
já meu avô o era
quando o meu pai o foi
eu começava a ser

gatinhava pela areia
ao colo de minha mãe
quando cansado

o mar sempre

corria então pela areia
atrás das redes gentes bois
ria-me com os peixes a saltar na lona
escondia-me na sombra dos barcos
sentava-me nas cordas
cadeiras minhas de criança

há quanto tempo…

hoje já eu fui
meu filho é
meu neto que será ?

 

(torreira, século XX)

cresci contigo


 

a linguagem da ternura

a pureza dos afectos

a limpidez das mãos quando te abraçava

descobri-as contigo

 

crescemos os dois

lado a lado como irmãos

que ainda somos

ser teu pai

aconteceu

seres meu filho

foi sendo

 

hoje

a ternura é outra

a mesma que me une ao teu avô

ao meu pai

que também cresceu comigo

e foi também teu

porque nosso

 

hoje

no dia que é meu

não me dês nada

vem apenas recordar o que fomos

e ouvir de novo as histórias

que para ti inventei