sempre


 

agostinho trabalhito (canhoto)

agostinho trabalhito (canhoto)

 

canhoto de alcunha

não é parco nas mãos ambas

ele é redes

ele é remos

ele é tudo o que o arrais pedir

ele é o sorriso

frente às vagas

o abraço que abraça todos

 

à tona do rosto

o mar salga-nos os olhos

só de o ver

ele é o rosto de todos os rostos

da gente de mar

 

ele é o rosto

dos pescadores portugueses

 

agostinho

vamos?

onde queiras cravo

 

é assim sempre

 

 

(torreira; companha do marco; 2010)

meditação à beira ria (7)


sobreviver na ria

sobreviver na ria

saber que

tão breve

tão coisa pouca

tão aqui

sem

 

fazedor de coisas várias

não me fiz nunca

fui vindo

 

ajuntador de letras

de imagens

do que posso

 

em nada sendo algo

mas apenas

isto

um mais

 

ou menos

sei lá

 

o vento sopra

lá fora

há um poeta

por dentro dele

a falar-me do binómio de newton

 

talvez volte

e o encontre ou não

é tudo assim

 

(ria de aveiro; torreira)

marco silva o arrais dos mil ofícios


reparar o saco

reparar o saco

o arrais marco silva e o camarada agostinho trabalhito (canhoto) reparam os estragos feito aos saco durante o lanço.

um dos motivos porque esta companha consegue subsistir deve-se ao facto do arrais marco silva, ser um homem dos “não sei quantos” ofícios: construção naval, reparação de máquinas e motores, fazer e reparar redes e, sendo sempre o arrais da companha.

confesso que conheço poucos, como ele, que vão “a todas”

(torreira; companha do marco; 2010)

do tempo


 

 

 

chuva no vidro

chuva no vidro

 

 

como são cinzentos

estes dias sem sol

húmidos de tantas lágrimas

de olhos nenhuns

caídas

 

é inverno

nenhum inverno

é eterno

 

tempo virá de haver

sol sobre os corpos

e não haverá coelhos

por mais brancos

que escapem vivos

 

falo de estações

e de apeadeiros

 

(torreira; marina dos pescadores)