eu digo “ladrões!”


marco silva, albina e trovão

marco silva, albina e trovão

repararam as redes

aparelharam o barco

estudaram o mar

fizeram-se a ele

venceram-no de novo

lançaram a rede

regressaram a terra

arribaram e ganharam de novo ao mar

alaram o aparelho

suaram muito

foram todos e todos forma um

o saco trouxe peixe

ajoelharam-se

curvaram-se

suaram de novo

reaprenderam a contar

mediram escolheram

separaram sonharam

partem agora

para novo desafio

o dos homens

o do preço

da lota

ganham-lhes menos vezes

que às força indómitas do mar

chamam-lhe mercado

eu digo “ladrões!”

(torreira; companha do marco; 2010)

a lama


antónio trabalhito e zé henrique

zé henrique e antónio trabalhito

 

a lama chegava onde

a maré de ir

atolei-me

e também fui

a lama chegou-me onde

 

são muitos

mais que todos os outros

menos que os outros todos

ouviram as promessas

acreditaram

quiseram

 

esperarão

e terão

um dia

não o que querem

não o que merecem

o que lhes derem

será o que

quiserem

 

quem pesca na ria

não pesca no prato

 

a lama chegará ainda

 

(torrreira; porto de abrigo)

xávega: a escolha do peixe


 

 

o peixe a seus pés

o peixe a seus pés

se o saco traz peixe em quantidade, enchem-se com ele caixas de plástico, que são despejadas no atrelado onde a companha faz a escolha para caixas menores, separando por espécies e tamanhos.

depois as caixas são despejadas para dentro de uma tina cheia de água do mar, lavado da areia, e peixe é finalmente acomodado nas caixas em que irá à lota.

poucas são as praias que têm lota, no caso da torrreira o peixe é vendido na lota de aveiro ou matosinhos, conforme a hora, a quantidade e o preço a que estiver a correr o peixe que foi pescado em maior quantidade.

(torreira; companha do marco; 2010)

tu no centro


 

 

como se formigas

como se formigas

uma frágil linha
ténue
brevíssima
separa o real do real

(confunde-te o que digo
mas escuta)

se longe ou de perto
o mesmo
é muito diferente
como o vires
assim o darás

a beleza longe
é dor se perto
ambas reais
que tu recrias
em coisa única
sem o saberes

não sejas apenas
os teus olhos
(torreira; cabrita de pé)

nem tudo o que luz é prata


nem tudo o que luz é prata

nem tudo o que luz é prata

é peixe do mar

pelas ruas as peixeiras
corriam descalças
canastra à cabeça
quantos quilómetros nos pés
na garganta a cantiga
variava conforme a praia

“é peixe do mar”
“sardinha do nosso mar”

quantas vezes peixe na ida
couves batatas cenouras broa
algumas moedas ou notas
no regresso
o cansaço e o pão
sempre o pão
para a mesa da janta

foi-se a sardinha
do carapau o intermediário
come a carne e deixa a espinha
a cavala devora o carapau
afasta-o da costa
e é de pouca valia quando enche as redes

o jaquinzinho
é perseguido pela europa
e seus sicários nacionais
para ser comido
em manjares recatados
para depois ser vendido como canção

xávega quem te ouve?

(torreira; companha do marco; 2010)

 


 

a senhora

a senhora

 

os saberes são os de sempre

como os barcos e os aparelhos

receberam e dão

pais de filhos

memória são

 

homens e mulheres

jovens e menos jovens

todos

procuram no debaixo das águas

o pão que noutro sítio não sabem

 

porquê agora?

porquê aqui?

porquê?

 

chamam-lhe fé

 

(torreira; porto de abrigo)