
é verão e tudo arde só em mim o fogo se faz água
(torreira; 2011)
um urso de peluche na bica da proa da bateira a coluna sofrida de tanto um sorriso e um abraço enormes pescará ainda enquanto o corpo que outra arte não sabe reparte o amor entre os seus e a ria por vezes queixa-se mas de dores reclama da balança do intermediário do roubo descarado do pão transformado em carros de luxo a democracia ainda não chegou à ria aqui a dita dura é ela que decide o quê quando e por quanto são estes os homens livres aos olhos de quem chega admira a beleza da paisagem regista-a e divulga mas é de lama que se trata aqui anda vem aprender a ria
(torreira; 2008)
vejo-me ainda no olhar o outro nas palavras nos silêncios descubro-me e descubro escuto-me ouvindo eu sou já o cresci em mim ao sê-lo também nos que me rodeiam sou com o prazer de me ser não sei de solidão somos muitos em mim seremos ainda quando um não for assim a memória de um tempo para além de
(torreira)
recuso outro tempo que não o meu sou o agora e o aqui na inquietação de querer melhor sou a pedra no vidro o prego no sapato não mudo de passeio mudam não ponho máscaras sou-me irritantemente por vezes sei e nunca é demais não procuro encontro reencontro vomito quisera ser o grito

o peso das raízes prende a nuvem ao sonho gota a gota sobre os dias cai o ser aqui de novo reencontro nas redes as mãos safando limos caranguejos bastos a vida depois do grito negro do choco na face os homens são-me agora mais próximos deito-me ao comprido da ria braços abertos num abraço retido no fundo de mim ergo-me por dentro cresço árvore onde água
(o peso da solheira; torreira)
não têm outro relógio que as marés outra companhia que a da mulher filho ou parente que esta arte não dá para companheiros são os últimos pescadores da ria têm todas as idades começam novos orgulhosos da primeira bateira e acabam quando já não correm o mundo em busca do pão que a ria já não dá encontra-los no bacalhau no arrasto em todo o mundo da islândia à terra do fogo são senhores do mar é esta a gente da laguna daqui partem e são mestres aqui chegam para serem esburgados pelos intermediários -isto não é um poema é a vida do pescador-
(torreira)
no lento saborear deste estar aqui longe e perto de ser só ser só trazer na língua o sal roubado algures ter tudo sem nada querer possuir e ser feliz por ser assim olhar tudo e tudo ser na alegria plena de estar vivo e ver as cores bailam-me diante dos olhos são rios que nascem sem ânsias de foz sorrio por entre as nuvens dos dias inúteis no lento saborear deste aqui estar
(torreira; 2011)
(torreira; 2010)
responde pelo nome de necas, é o cão do alberto trabalhito (trovão).
cão de pesca, cão de pescador, acompanha o dono em todas as suas saídas para ganhar na ria o pão, nem sempre o melhor.
é um animal compenetrado nas suas funções e segue com atenção, quase como se fiscalizando e controlando, todas as acções dos donos.
neste registo íamos largar redes solheiras.
o henrique “orelhas” – terá apelido de família certamente, mas é pela alcunha que toda a gente o conhece – prepara o ramo de rosas que irá colocar aos pés da senhora de fátima que encima a bica.
é esta a gente que nos faz sentir gente também e lastimar aqueles que “lá do seu império” os não acarinham e compreendem.
fica neste registo a minha singela homenagem a todos os pescadores da torreira que me recebem no seu meio como amigo e “da casa”.
(ria de aveiro; torreira; marina dos pescadores)
(torreira; marina dos pescadores; 2010)