vem aprender a ria


raul bastos
um urso de peluche
na bica da proa da bateira
a coluna sofrida de tanto
um sorriso e um abraço
enormes

pescará ainda
enquanto o corpo
que outra arte não sabe
reparte o amor entre os seus
e a ria

 
por vezes queixa-se
mas de dores
reclama da balança
do intermediário
do roubo descarado do pão
transformado em carros de luxo

a democracia
ainda não chegou
à ria
aqui a dita dura
é ela que decide o quê
quando e por quanto

são estes os homens livres
aos olhos de quem chega
admira a beleza da paisagem
regista-a e divulga
mas é de lama
que se trata aqui

anda
vem aprender a ria

(torreira; 2008)

para além de


vejo-me ainda no olhar
o outro
nas palavras
nos silêncios
descubro-me e descubro

escuto-me
ouvindo
eu sou já o
cresci em mim
ao sê-lo também

nos que me rodeiam
sou
com o prazer
de me ser
não sei de solidão
somos muitos em mim

seremos ainda
quando um não for
assim a memória de um tempo
para além de

(torreira)

o grito


reflexos marina pescadores torreira
recuso outro tempo
que não o meu
sou o agora e o aqui

na inquietação de
querer melhor

sou
a pedra
no vidro
o prego
no sapato
 
não mudo de passeio
mudam
não ponho máscaras
sou-me
irritantemente
por vezes sei e nunca
é demais

não procuro
encontro
reencontro
vomito
 
quisera ser
o grito

ergo-me árvore


o peso das raízes
prende a nuvem ao sonho
gota a gota
sobre os dias cai o ser aqui

de novo
reencontro nas redes
as mãos
safando limos caranguejos bastos

a vida
depois do grito negro
do choco
na face

os homens são-me agora
mais próximos
deito-me ao comprido da ria
braços abertos
num abraço retido no fundo de mim

ergo-me por dentro
cresço árvore onde água

(o peso da solheira; torreira)

a vida do pescador


colher as redes da solheira
não têm outro relógio
que as marés
outra companhia
que a da mulher
filho ou parente

que esta arte
não dá para companheiros

são os últimos
pescadores da ria
têm todas as idades
começam novos
orgulhosos da primeira bateira
e acabam quando já não

correm o mundo
em busca do pão que a ria
já não dá
encontra-los no bacalhau
no arrasto
em todo o mundo
da islândia à terra do fogo
são senhores do mar

é esta a gente
da laguna
daqui partem
e são mestres
aqui chegam
para serem esburgados
pelos intermediários
 
-isto não é um poema
é a vida do pescador-

(torreira)

ser só ser


os rios das cores
no lento saborear
deste estar aqui
longe e perto de
ser só ser só

trazer na língua o sal
roubado algures

ter tudo sem nada
querer possuir
e ser feliz
por ser assim

olhar tudo e tudo ser
na alegria plena
de estar vivo e ver

as cores bailam-me
diante dos olhos
são rios que nascem
sem ânsias de foz

sorrio
por entre as nuvens
dos dias
inúteis
no lento saborear
deste aqui estar

(torreira; 2011)

o necas


(torreira; 2010)

responde pelo nome de necas, é o cão do alberto trabalhito (trovão).

cão de pesca, cão de pescador, acompanha o dono em todas as suas saídas para ganhar na ria o pão, nem sempre o melhor.

é um animal compenetrado nas suas funções e segue com atenção, quase como se fiscalizando e controlando, todas as acções dos donos.

neste registo íamos largar redes solheiras.

as rosas do orelhas


 
o amor dos pescadores da torreira às suas bateiras vai ao ponto de as decorar com os adereços mais belos, sejam eles religiosos (nas pinturas decorativas), seja nas cores com que as pintam, seja ainda no ponto mais alto e emblemático da bateira: a bica da proa.

 

o henrique “orelhas” – terá apelido de família certamente, mas é pela alcunha que toda a gente o conhece – prepara o ramo de rosas que irá colocar aos pés da senhora de fátima que encima a bica.

é esta a gente que nos faz sentir gente também e lastimar aqueles que “lá do seu império” os não acarinham e compreendem.

fica neste registo a minha singela homenagem a todos os pescadores da torreira que me recebem no seu meio como amigo e “da casa”.

(ria de aveiro; torreira; marina dos pescadores)

(torreira; marina dos pescadores; 2010)