humedeço
os dias
com os olhos
pelos dedos
escorrem
salgadas
palavras
onde poisar
o rosto
gretado
(falo de ternura)
durante as regatas, de moliceiros e não só, a corrida pode-se perder ou ganhar, segundo a forma como se aborda e contorna as bóias que limitam o percurso.
na ria de aveiro diz-se que os barcos “cambam” quando a contornam, é um dos momentos mais interessantes de fotografar e onde a confusão é maior.
(torreira; regata do s. paio, 2010)
momentos há em
que o peso
dos dias se
sobrepõe
ao brilho da luz
momentos há em
que o peso da dor
se sobrepõe
à leveza de
estar vivo
momentos há em
que se soubesses
se soubesses mesmo
terias aprendido a voar
partirias então
leve
muito leve
sem peso
de mais nada
que não o de seres
assim
sem que
momentos houvesse em
que o peso
é demais
e carece de fim
(torreira; marina dos pescadores)
no século passado a construção dos barcos de mar e da ria, na zona da murtosa/torreira, teve no mestre henrique lavoura, de pardilhó, o seu maior expoente.
com ele fizeram escola alguns dos actuais mestres construtores, um deles é o mestre felisberto, construtor da barca de mar olá sam paio.
(torreira)
o tempo parou
no umbral da porta
só a luz passou
coada, finíssima
tudo cobre
com a patine do tempo
em que o tempo
parou
tempos houve
em que fogo
gente, sopa
mesa, vinho
pão, calor
tempos
parcos de haver
fartos de partir
foram-se
levando com eles
a memória
e o tornar
parou o tempo
no exacto momento
em que a porta
passaram
prometendo
a si mesmos
que um dia
quem sabe
outra casa
farta e nova
ali fariam
não voltaram
para onde foram
aí ficaram
e o tempo
o tempo parou
(macieira; serra da gralheira; s.pedro do sul)
o retirar o peixe do saco com recurso a “xalavares” é o primeiro passo dos últimos de um lanço.
a ele segue-se a escolha, a lavagem e o enchimento das caixas, que serão negociadas com o intermediário e/ou levadas à lota.
enganam-se aquele que pensam que o pescador ganha bem porque o peixe é caro. entre a venda ao intermediário e a venda ao público o preço pode ser multiplicado por mais de 10 vezes.
enquanto os pescadores não se organizarem e forem eles próprios a fazer a venda directa na lota, com exclusão de intermediários, ganham muito os que fazem pouco e ganham pouco os que trabalham muito.
mas isto não passa de um sonho, no que se refere à pesca artesanal. nunca houve organização e não é agora, quando são tão poucos, que vai haver. a subsistência da xávega, não é um milagre, mas é um mistério alimentado com muito suor e reformados.
(torreira; companha do murta; 2006)
a introdução da xávega em portugal esteve relacionada com a pesca da sardinha, enquanto prato de peixe dominante na dieta do país.
com o surgimento das traineiras na pesca da sardinha a produtividade da xávega decresceu significativamente e a única espécie rentável é o carapau.
como escreveu camões “tudo é feito de mudança”, aqui também
(torreira; companha do murta; 2006)

ninguém é tão forte
quanto julga
ninguém é tão fraco
quanto parece
olha-te
antes
de veres
……
os rios
correm
para o mar
só eu
corro
sem destino
……
magoa-te
hoje
amanhã
serás imune
……
os dias
não pesam
tu neles
…..
acorda
comigo
não durmas
…..
quando
acordei
não eras tu
…..
o teu rosto
as minhas mãos
um poema
…..
eu sou
tu és
nós seremos?
…………
o óbvio
é
um espanto