o cambar


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durante as regatas, de moliceiros e não só, a corrida pode-se perder ou ganhar, segundo a forma como se aborda e contorna as bóias que limitam o percurso.

na ria de aveiro diz-se que os barcos “cambam” quando a contornam, é um dos momentos mais interessantes de fotografar e onde a confusão é maior.

(torreira; regata do s. paio, 2010)

se soubesses


o peso feito

 

momentos há em
que o peso
dos dias se
sobrepõe
ao brilho da luz

momentos há em
que o peso da dor
se sobrepõe
à leveza de
estar vivo

momentos há em
que se soubesses
se soubesses mesmo
terias aprendido a voar

partirias então
leve
muito leve
sem peso
de mais nada
que não o de seres
assim

sem que
momentos houvesse em
que o peso
é demais
e carece de fim

(torreira; marina dos pescadores)

o tempo parou


sem moldura

o tempo parou

no umbral da porta
só a luz passou
coada, finíssima
tudo cobre
com a patine do tempo
em que o tempo
parou

tempos houve
em que fogo
gente, sopa
mesa, vinho
pão, calor

tempos
parcos de haver
fartos de partir

foram-se
levando com eles
a memória
e o tornar

parou o tempo
no exacto momento
em que a porta
passaram
prometendo
a si mesmos
que um dia
quem sabe
outra casa
farta e nova
ali fariam

não voltaram
para onde foram
aí ficaram
e o tempo

o tempo parou

(macieira; serra da gralheira; s.pedro do sul)

xávega – o recolher do peixe


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o retirar o peixe do saco com recurso a “xalavares” é o primeiro passo dos últimos de um lanço.

a ele segue-se a escolha, a lavagem e o enchimento das caixas, que serão negociadas com o intermediário e/ou levadas à lota.

enganam-se aquele que pensam que o pescador ganha bem porque o peixe é caro. entre a venda ao intermediário e a venda ao público o preço pode ser multiplicado por mais de 10 vezes.

enquanto os pescadores não se organizarem e forem eles próprios a fazer a venda directa na lota, com exclusão de intermediários, ganham muito os que fazem pouco e ganham pouco os que trabalham muito.

mas isto não passa de um sonho, no que se refere à pesca artesanal. nunca houve organização e não é agora, quando são tão poucos, que vai haver. a subsistência da xávega, não é um milagre, mas é um mistério alimentado com muito suor e reformados.

(torreira; companha do murta; 2006)

 

 

um bom lanço


carapau da costa

a introdução da xávega em portugal esteve relacionada com a pesca da sardinha, enquanto prato de peixe dominante na dieta do país.

com o surgimento das traineiras na pesca da sardinha a produtividade da xávega decresceu significativamente e a única espécie rentável é o carapau.

como escreveu camões “tudo é feito de mudança”, aqui também

(torreira; companha do murta; 2006)

súbito


de dentro

ninguém é tão forte
quanto julga
ninguém é tão fraco
quanto parece

olha-te
antes
de veres

……

os rios
correm
para o mar

só eu
corro
sem destino

……

magoa-te

hoje
amanhã
serás imune

……

os dias
não pesam
tu neles

…..

acorda
comigo
não durmas

…..

quando
acordei
não eras tu

…..

o teu rosto
as minhas mãos
um poema

…..

eu sou
tu és
nós seremos?

…………

o óbvio
é
um espanto