vagas
espuma
suor
sal
raiva
os homens gritam
as mulheres tapam os olhos
rezam
é agora
vou abaixo
para poder galgar o vazio
subir no ar
e planar enfim no mar
sou barco sim
para quê negar
a dança das redes termina.
alada para a ré, safada para a proa, para a praia ou para o cais, regressa à ré para ser largada.
entre um momento e outro mais de 12 horas passaram, um dia de trabalho que, raramente compensa.
o joão, um bom amigo do silêncio, safou para o cais e agora dispõe as redes para nova largada.
(torreira, marina dos pescadores)
para além do vidro
talvez
uma mensagem passe
palavras onde eu
do avesso
renasça
um beijo de vida
talvez chegue
aos meus olhos
sonhando
sempre
sempre
a menina que sou
ainda
(não sei)
foto de sofia carvalho:
http://www.facebook.com/photo.php?fbid=1662305921097&set=a.1503956722466.2065907.1340696876
sou a que fica em terra
à espera dele
que trabalha desde que as pernas
suportam o corpo
até que o corpo as não sinta
sou eu que grito
quando o mar está bravo
e o barco sobe na crista da onda
quando o arrais grita
VAI! VAI! VAI!
sou a que se faz ouvir no nevoeiro
dizendo que a terra é aqui
também as mulheres safam as redes e não precisam de homem ao pé.
a carmo e a fátima (chinchão) safam as redes para a passadeira da marina.
depois virá o homem e arrumará as redes para as largar.
numa terra onde muitas das mulheres têm de carta de marinheiro, até os pescadores podem descansar.
há quem lhes chame “pescadeiras”, eu gosto mais de pescadoras.
mulheres há beira ria nadas, mulheres de mar, MULHERES
(torreira – marina dos pescadores)
espero-te
eu sei que vens
elas brincam
eu esqueci-me
de como
deixei
as brincadeiras
penduradas dos teus
braços
vejo-te
ainda a sorrir
só eu te vejo
sou só eu a sentir
a boneca que me deste
era de trapos
mas tinha dentro
o teu coração
fico assim como se a olhar
para nada
e tu
tu estás lá dentro
aqui
foto de sofia carvalho (blandisca)
deixa-me ficar assim
como se o tempo
não
como se tu
sempre
como se eu
ainda
o sorriso
o sorriso,
guardo-o para
a primavera
quando trouxeres o
malmequer no cabelo
as searas nos olhos
a maçaroca nos dedos
deixa-me estar assim
deixarei que me olhes
e sejas tu também
por momentos
o eu que vê